segunda-feira, 3 de agosto de 2026

A dança das cadeiras

 

Há jogos em que o Benfica joga bem. Há jogos em que joga mal.

Mas há uma competição em que somos candidatos ao título todos os anos: a dança das cadeiras.

Começa o mercado e ouvimos a música do costume: o plantel está fechado. Completo. Equilibrado. Preparado para atacar todas as competições.

Cinco minutos depois, os adeptos olham para a lista de jogadores e fazem aquela pergunta simples:

— "Então... e os laterais?"

Silêncio.

— "E os centrais?"

Mais silêncio.

Mas calma. Não há motivo para preocupação. Porque no Benfica existe sempre uma solução para tudo:  mudar as cadeiras.

Lesiona-se um lateral? O extremo recua.

Um central é castigado? O médio desce.

Falta outro? O lateral transforma-se em central.

Lesiona-se esse também? Troca-se mais uma cadeira.

E se faltar mais alguém... logo se vê quem ainda está sentado. Pergunta-se apenas quem trouxe chuteiras. Se correr... joga.

Qualquer pessoa que olhe para o plantel, percebe que temos um problema.

Não é preciso ter um cargo no futebol. Não é preciso uma folha de Excel com 300 páginas e gráficos em PowerPoint. Basta contar até onze e perceber que há mais posições do que jogadores preparados para elas.

Mas chega agosto e ouvimos que está tudo controlado.

Chega setembro e a realidade aparece.

Chega outubro... e já ninguém sabe muito bem quem joga onde.

O lateral continua a ser extremo.

O central continua a ser médio.

O médio faz de central.

O extremo faz de ala.

E o treinador faz de relações públicas, a explicar porque é que, afinal, isto sempre foi o plano.

Há clubes que compram jogadores para as posições. O Benfica parece preferir comprar jogadores e descobrir-lhes uma posição pelo caminho. 

O scouting deve funcionar assim:

— "Em que posição joga?"

— "Extremo."

— "Mas precisamos de um lateral."

— "Excelente. Tem pernas? Corre? Então adapta-se."

— "E defende?"

— "Isso aprende-se."

No fundo, até faz sentido. Somos um clube formador.

E depois há sempre aquela frase maravilhosa:

"Temos soluções internas."

Pois temos.

Também tenho uma cadeira da cozinha que serve de escadote. Não significa que tenha sido feita para isso. E também consigo abrir uma garrafa com uma colher. Funciona. Mas não é propriamente um plano de engenharia.

É que a dança das cadeiras só é divertida quando é uma brincadeira. Quando passa a ser o modelo de planeamento de um clube que quer ser campeão... deixa de ter graça.

Ou melhor...

...só tem graça para quem continua a confundir polivalência com com falta de planeamento e remendos com estratégia.


 

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