Há jogos em que o Benfica joga bem. Há jogos em que joga mal.
Mas há uma competição em que somos candidatos ao título todos os anos: a dança das cadeiras.
Começa
o mercado e ouvimos a música do costume: o plantel está fechado.
Completo. Equilibrado. Preparado para atacar todas as competições.
Cinco minutos depois, os adeptos olham para a lista de jogadores e fazem aquela pergunta simples:
— "Então... e os laterais?"
Silêncio.
— "E os centrais?"
Mais silêncio.
Mas calma. Não há motivo para preocupação. Porque no Benfica existe sempre uma solução para tudo: mudar as cadeiras.
Lesiona-se um lateral? O extremo recua.
Um central é castigado? O médio desce.
Falta outro? O lateral transforma-se em central.
Lesiona-se esse também? Troca-se mais uma cadeira.
E se faltar mais alguém... logo se vê quem ainda está sentado. Pergunta-se apenas quem trouxe chuteiras. Se correr... joga.
Qualquer pessoa que olhe para o plantel, percebe que temos um problema.
Não é preciso ter um cargo no futebol. Não é preciso uma folha de Excel com 300 páginas e gráficos em PowerPoint. Basta contar até onze e perceber que há mais posições do que jogadores preparados para elas.
Mas chega agosto e ouvimos que está tudo controlado.
Chega setembro e a realidade aparece.
Chega outubro... e já ninguém sabe muito bem quem joga onde.
O lateral continua a ser extremo.
O central continua a ser médio.
O médio faz de central.
O extremo faz de ala.
E o treinador faz de relações públicas, a explicar porque é que, afinal, isto sempre foi o plano.
Há clubes que compram jogadores para as posições. O Benfica parece preferir comprar jogadores e descobrir-lhes uma posição pelo caminho.
O scouting deve funcionar assim:
— "Em que posição joga?"
— "Extremo."
— "Mas precisamos de um lateral."
— "Excelente. Tem pernas? Corre? Então adapta-se."
— "E defende?"
— "Isso aprende-se."
No fundo, até faz sentido. Somos um clube formador.
E depois há sempre aquela frase maravilhosa: "Temos soluções internas."
Pois temos.
Também tenho uma cadeira da cozinha que serve de escadote. Não significa que tenha sido feita para isso. E também consigo abrir uma garrafa com uma colher. Funciona. Mas não é propriamente um plano de engenharia.
É que a dança das cadeiras só é divertida quando é uma brincadeira. Quando passa a ser o modelo de planeamento de um clube que quer ser campeão... deixa de ter graça.
Ou melhor...
...só tem graça para quem continua a confundir polivalência com com falta de planeamento e remendos com estratégia.