Como seria de esperar, o caso que envolve Vinícius e o Prestianni rapidamente ultrapassou o plano desportivo e entrou no domínio mediático. No meio de comunicados, declarações e versões contraditórias, parece-me evidente que alguém não está a dizer toda a verdade.
Se realmente existiu um insulto racista, estamos perante algo de extrema gravidade. O racismo não é uma “picardia de jogo”, é crime, é indigno e deve ser punido sem contemplações. Existe, porém, um princípio básico, por mais sensível que seja o tema, que não pode ser ignorado: para punir, é preciso provar. Sem prova não pode haver condenação formal. Isto não é relativizar o racismo, é respeitar princípios elementares de justiça.
E é aqui, como se costuma dizer, que a porca começa a torcer o rabo.
Em campo há tensão, provocações e palavras que passam despercebidas, ou não, e os jogadores podem optar por não reagir de imediato e apenas quando sentem que se ultrapassou um limite. Nada de errado aqui, todavia, quando a narrativa é elíptica, é legítimo questionar a consistência dos factos relatados.
O Mbappé diz que ouviu cinco vezes o insulto. Cinco vezes?! Ele estava a jogar futebol ou a fazer teste de audiometria no meio do estádio?
O Valverde diz que o facto de o Prestinai tapar a boca, incrimina-o. Ah claro, porque tapar a boca é basicamente o equivalente jurídico a assinar uma confissão! Então e sobre os treinos de UFC, nada?
O Prestiani veio dizer é tudo mentira e que tapar a boca é normal Nós sabemos, miúdo! Só falta vir no regulamento da UEFA: “Artigo 14.º – conversas estratégicas devem ser sussurradas"
O Vinicius, ao contrário do Prestiani, tinha a boca bem visível, embora ninguém pareça interessado em saber o que terá dito. Portanto, boca tapada é suspeito, boca destapada é invisível. O Schrödinger não faria melhor. Mas é justo reconhecer que o pirralho é artista, seja pelos golos que marca seja pela queda inegável para o teatro!
O Arbeola está com o Vinicius até à morte. Até à morte no futebol dura quanto tempo mesmo? Até à próxima birra do Vinicius por ser substituído? Cuidado, o Florentino já pôs os patins a outros por menos.
O Mourinho releva o facto de o Vinicius ser useiro e vezeiro neste género de situações e de árbitro ter um papelinho no bolso. Mister, Mister, nós sabemos que já por lá andou mas, veja lá, o tempo das fogueiras já acabou mas há sempre quem esteja disposto a acender uma.
O Benfica publica um vídeo a evidenciar a distância a que os jogadores do Real Madrid estavam dos acontecimentos. Alguém anda a ver muito CSI, mas Grissmon há só um.
E entre televisões, jornais e redes sociais, é um verdadeiro pandemónio. Pandemónio? Algoritmo, não sei porquê, soa-me melhor
Naturalmente, as dúvidas geradas por versões contraditórias não apagam a gravidade de uma possível ofensa racista. Combater o racismo é um dever absoluto, ponto. No entanto, quando o debate é selectivo, a parcialidade é inevitável, a manipulação domina, os conceitos confundem-se e, por conseguinte, o caos instala-se.
No que me diz respeito, e tentando alhear-me de toda esta histeria, quando as versões não encaixam, o único caminho sério é investigar. E neste contexto o bom senso das instituições é preponderante.
A UEFA, bem a UEFA é a UEFA, e fico-me por aqui. O Real Madrid, por seu lado, assumiu de imediato uma defesa pública inequívoca do Vinicius suportado não sei bem em quê. Mas o Real Madrid não me interessa nada, interessa-me o Benfica, que falhou em toda a linha.
O Benfica tinha uma oportunidade clara de demonstrar maturidade institucional. E teria sido muito simples, bastaria dizer, “Vamos abrir um inquérito interno para apurar exactamente o que aconteceu.” Esta postura não seria uma admissão de culpa, seria um sinal de responsabilidade e transparência que se traduz em credibilidade. Defender um jogador não implica atacar automaticamente o adversário. Defender algo/alguém implica, antes de tudo, querer saber a verdade.
Ao optar por uma reacção combativa visando os jogadores do Real Madrid, o Benfica alimenta a narrativa quando o momento exigia serenidade esquecendo-se que num tema desta complexidade, a prudência não é sinónimo de fraqueza, mas sim de inteligência. E no fim, se houve racismo, que se puna exemplarmente. Se não houve, que se diga com a mesma clareza.
Mas o Benfica, como o Paulo Santos evidenciou num comentário à publicação anterior, repetiu os erros de sempre: reage emocionalmente em vez de estrategicamente, comunica mensagens contraditórias que não só resultam numa exposição desnecessária do clube como perpetuam o debate público com consequências nefastas, onde a verdade é sempre a primeira vítima.
Comunicar bem não é opcional, é uma ferramenta essencial de gestão. Uma ponte entre quem decide e quem nunca abandona. É o que nos mantém unidos nos momentos difíceis e nos faz ainda mais fortes nas vitórias.
Por favor, Benfica, ouve a tua gente!


