Foram 9 anos de raça, entrega e respeito ao Benfica.
Ontem despedimo-nos de ti, Silvino, mas nunca daquilo que representaste dentro de campo.
Obrigado por tudo.
Até sempre campeão!
Foram 9 anos de raça, entrega e respeito ao Benfica.
Ontem despedimo-nos de ti, Silvino, mas nunca daquilo que representaste dentro de campo.
Obrigado por tudo.
Até sempre campeão!
No futebol, alguns jogadores destacam-se pelo talento que anunciam, outros pelo respeito que inspiram silenciosamente.
Nicolás Otamendi pertence claramente ao segundo grupo.
Otamendi nunca foi um jogador de meias-medidas. Desde os primeiros passos na Argentina até se afirmar nos palcos mais exigentes da Europa e na seleção, a sua reputação foi construída com carácter, entrega e uma competitividade feroz que nunca esmoreceu com o passar dos anos. Em cada duelo, em cada corte decisivo, em cada comando no relvado, ficou evidente aquilo que distingue os grandes capitães dos restantes, liderar pelo exemplo. Uma forma de estar que o futebol resumiu numa alcunha simples e poderosa: O General.
Portugal faz parte dessa história. Foi no FCP que se apresentou ao futebol europeu e onde rapidamente se destacou pela sua personalidade. Muitos anos e muitos desafios depois, o destino acabou por desenhar um regresso inesperado a Portugal, desta vez para vestir a camisola do Benfica.Não era um cenário simples. A passagem anterior por um rival directo inevitavelmente levantou dúvidas e desconfianças. Além disso, o início não foi particularmente tranquilo. Houve erros, houve críticas, houve momentos em que parecia faltar sintonia. Mas certas reputações constroem-se precisamente pela forma de responder às dúvidas. Com o tempo, Otamendi voltou a afirmar aquilo que sempre foi, alguém que nunca vira a cara à luta, um líder que nunca se esconde. E gradualmente, as desconfianças foram sendo substituídas por reconhecimento. O General voltava a assumir o seu lugar.
O seu percurso merece ser recordado com respeito e admiração. Ao longo de várias décadas ao mais alto nível tornou-se sinónimo de liderança, coragem e compromisso absoluto. Mais do que títulos ou estatísticas, ficará na memória a figura de um verdadeiro guerreiro de campo inteiro.
Porque como em todas as grandes histórias, aproxima-se lentamente o momento em que o último capítulo começa a ser escrito. Não como um fim abrupto, mas como o encerramento natural de uma carreira intensa, consistente, exemplar. Um derradeiro acto de sabedoria de quem conquistou praticamente tudo o que havia para conquistar.
Porque os grandes não se retiram, permanecem. Vivem na memória dos estádios, na cultura dos clubes e na admiração dos adeptos. E quando chegar o dia em que Otamendi pendurar as chuteiras, não será apenas o adeus de um defesa-central. Será a despedida de alguém cuja presença deixou uma marca profunda em todos os que com ele conviveram dentro e fora do relvado.
Será o momento em que um líder cruza o limiar da sua última vitória. De cabeça erguida, com a dignidade, a coragem e a entrega que sempre demonstrou. Porque, no futebol, como na vida, há títulos que não se compram nem se inventam. Conquistam-se.
E poucos os mereceram tanto como ele: O General.
Forjado na luta, eternizado no respeito.
Até lá desfrutemos.
PORCOS, SERÃO SEMPRE PORCOS
Sobre o jogo propriamente dito, já muito foi dito e escrito. Uns, preferiram manter a tónica inicial, e reiterar, que os das riscas continuam a ser os melhores dos melhores e os vencedores antecipados, e "obrigatórios" desta liguinha. Acrescento eu, mentirosa e prenha de falsidade.
Há equipas que tentam resolver os jogos cedo. O Benfica prefere um método mais artístico: primeiro complica, depois corre atrás do prejuízo e, se tudo correr bem, ainda arranca qualquer coisa no fim. Foi mais ou menos esse o plano contra o Porto.
O onze inicial já levantava algumas sobrancelhas. A dupla Enzo Barrenechea / Richard Ríos no meio-campo é sempre um exercício de fé. Sabemos que há qualidade ali, algures, o problema é encontrá-la quando do outro lado está uma equipa que joga a um ritmo que parece ligeiramente mais rápido do que o Benfica costuma apreciar.
Ainda assim, o jogo até começou com uma oportunidade perfeita para mudar a narrativa. Bola recuperada e um dois para um contra a defesa portista. Era o tipo de lance que nos faz pensar: “pronto, hoje entrámos bem”. Rafa, porém, decidiu acrescentar um pouco de suspense. Mais um toque, depois outro, talvez para avaliar melhor o relvado… e quando finalmente pensou em passar a bola, a defesa do Porto já tinha voltado ao sítio. O lance morreu ali, como tantos outros esta época.
O Porto agradeceu a gentileza e respondeu com pragmatismo. O primeiro golo foi uma sucessão de erros em cadeia. Uma subida tresloucada do Otamendi, ninguém compensa, auto-estrada nas costas, Froholdt remata e Trubin defende para a frente com aquela generosidade que caracteriza os grandes anfitriões, directamente para os pés do mesmo jogador. Resultado: recarga e golo. Um verdadeiro trabalho de equipa e a impressão de que já tínhamos visto este filme várias vezes esta temporada.
O segundo golo foi ainda mais simples. O Benfica todo lançado para a frente, talvez convencido de que o Porto iria respeitosamente esperar que a jogada terminasse. Não esperou. Um passe longo, um jogador completamente sozinho na direita, uma corrida tranquila até à área e finalização sem grande oposição. Dois a zero e a sensação de que o jogo estava resolvido e que podíamos estar perante uma daquelas noites que parecem não ter fim.
O Benfica tinha a bola e boas intenções, mas ao intervalo a vantagem portista não surpreendia ninguém.
A segunda parte começou sem alterações, o que, perante ao que se tinha assistido na primeiro parte, foi no mínimo uma surpresa. Mas eis que finalmente alguém se lembrou de que estávamos a perder e que talvez fosse conveniente fazer qualquer coisa.
Entraram Ivanovic, Lukebakio e Barreiro, que trouxe ao meio-campo algo exótico chamado organização. Quatro minutos depois, remate ao poste, recarga e golo e a Luz voltou a respirar.
A partir daí o Benfica empurrou o Porto para trás, assumiu mais riscos e o jogo entrou naquele mood do tudo pode acontecer. Cada ataque do Benfica trazia esperança, cada contra-ataque portista parecia capaz de nos provocar um ataque cardíaco colectivo.
Mas o empate chegou mesmo a dois minutos do fim. Jogada rápida pela direita, cruzamento de primeira de Ivanovic e finalização também de primeira de Barreiro. Tudo muito simples, directo e eficaz e curiosamente exactamente o tipo de futebol que o Benfica demorou cerca de 88 minutos a experimentar.
E de repente a vitória parecia possível. Mas como o futebol português nunca resiste a um pouco de drama extra, uma confusão junto aos bancos quebrou completamente o ritmo de jogo e os seis minutos de compensação, cortesia do artista vestido de preto, fizeram o resto. Pelo meio ainda houve um penálti e uma expulsão que o árbitro e o VAR decidiram ignorar, num exercício peculiar de cegueira assistida por tecnologia.
No fim, o FC Porto não festejou título nenhum na Luz, é verdade, mas também não saiu propriamente preocupado. Já o Benfica saiu com aquele sentimento familiar de oportunidade perdida e a vaga ideia de que talvez fosse útil começar os jogos um pouco antes do minuto 70.
Porque há padrões que se repetem com uma consistência quase científica: metade do jogo a complicar, a outra metade a correr atrás do prejuízo.
É uma abordagem interessante, sem dúvida, mas infelizmente não costuma ser muito eficaz quando o objectivo é ganhar campeonatos.
Uma nota final para a cereja no topo do bolo que foi a conferência pós-jogo do Mourinho. Mas essa parte do espetáculo deixo para o meu ilustre colega Paulo Santos, que certamente terá muito a acrescentar com perspicácia que lhe é característica.
No princípio era o verbo…
Mas não era nada…era só para nos distrair, para ver se estávamos atentos!
No princípio era o futebol.
Ainda não havia linhas nem redes,
e já a bola flutuava sobre o nada.
E o primeiro som não foi palavra nenhuma!
O que se ouviu, foi algo mais simples e puro.
O couro a ceder sob o pé,
um estalo que acordou o vazio
e pôs o mundo a mexer.
E do espaço profundo, com ar de estrela que nunca cai, o craque decretou:
— Faça-se o jogo!
E o jogo fez-se.
Separou-se a defesa do ataque.
Chamou-se “golo” à luz e às trevas “autocarro estacionado”.
E viu-se que era bom. Era estranho mas bonito.
Embora não faltasse o visionário de sempre:
— Isto assim não vamos lá, pá… Isto vai dar confusão, já vos digo…
No segundo dia criou-se o drible,
Arte fina e traiçoeira, capaz de deixar o adversário a pedir um GPS para recuperar a dignidade.
E com essa proeza divina que até os anjos aplaudiram, o povo rendeu-se
e o primeiro “olé” rebentou nas bancadas como tempestade sideral.
No terceiro dia nasceram as
claques,
Multidões de cachecóis erguidos ao céu,
A transformar estádios em catedrais e bandeiras em mantos sagrados.
E no meio do fumo e dos cânticos alguém a berrar:
— Ó árbitro, abre os olhos, pá! Estás a gozar? Isso foi falta, até no Google Maps se viu!
No quarto dia surgiu o número 10,
E nos seus pés habitava a esperança.
Distribuía passes como quem espalha bênçãos.
E consoante o acerto ou o desacerto, ouvia-se:
- Isto é que é futebol champanhe!
- Ó artista, isto não é PlayStation!
No quinto dia inventou-se o golo nos descontos,
E quando já toda a gente dizia: já foste!
Saltaram cervejas e voaram bifanas,
A malta que já saía voltou para trás,
E entre abraços a desconhecidos transformados em irmãos,
Gritou-se com fé renovada:
- Estava escrito!
Mas também se criou o VAR.
E fez-se silêncio. Olhos
postos no ecrã. Mãos na cabeça.
Frames intermináveis, linhas traçadas como gráficos de laboratório
Ombro ou sovaco? Unha ou chuteira?
E o povo, dividido entre a fé e a impaciência, dizia:
- Mas isto agora é engenharia aeroespacial? Porra, decide lá isso!
E viu-se que era fora de jogo por um átomo de ambição esquiva.
E metade assinou de cruz. A outra metade jurou que era conspiração.
No sexto dia, os deuses olharam e disseram, falta-lhe emoção!
E assim se forjaram os dérbis e os clássicos,
E com eles rivalidades eternas, nervos à flor da pele, discussões que duram
semanas, redes a arder.
E sobre todos pairou a lei sagrada do futebol:
- Para o ano é que é!
E ao sétimo dia… ninguém descansou.
Porque no futebol não há repouso,
há prolongamentos e penáltis,
e conferências de imprensa analisadas como se fossem cartas do além.
E assim ficou escrito:
Enquanto houver uma bola a rolar,
haverá magia na relva,
e cada remate será um acto de criação.
Porque no princípio era o futebol.
E o no Domingo...bem, no Domingo, logo se vê….
O futebol português já não é apenas futebol. É uma experiência metafísica transmitida em HD numa interpretação contínua da realidade. O relvado fornece a matéria-prima e a verdade nasce a posteriori naquele santuário tecnológico onde residem os guardiões do critério. Ali, o VAR não decide apenas lances, decide sobre as infinitas possibilidades do multiverso.
E foi precisamente neste contexto que, no jogo entre o FCP e o FC Arouca, fomos brindados com um momento delicioso em que um pontapé se transformou numa saga quixotesca.
Não falamos de um roçar poético nem de uma brisa outonal. Falamos de um valente pontapé, daqueles que ensinam anatomia em tempo real. Um diálogo directo entre chuteira e tornozelo, no qual o segundo foi diplomaticamente persuadido reconsiderar a sua permanência naquele ponto específico do universo.
O árbitro, mestre das interpretações, decidiu que era penálti a favor do FCP.
Na sala do VAR, entre cabos HDMI e repetições infinitas, e perante a possibilidade de um milagre conceptual, materializaram-se duas figuras convocadas em regime de urgência: Isaac Newton e Franz Kafka.
Newton foi o primeiro a falar.
Newton franziu o sobrolho.
— Iniciou?! O tornozelo?! Está a sugerir que a reacção precedeu a acção?
— Não precedeu — esclareceu o VAR. — Coincidiu ontologicamente.
Newton levou as mãos à cabeça..
— Isso subverte a física!!!
— Não subverte — corrigiu o VAR — apenas a actualiza.
Kafka, que até então tomava notas silenciosamente, interveio com um leve sorriso.
— Meu caro Newton, não estamos perante uma questão de física, mas de procedimento. Aqui, o tornozelo não é julgado pelo que fez, mas pela sua presença inconveniente. O seu erro foi estar ali quando a chuteira passou. No processo, a explicação não é necessária porque o sistema não se explica, valida-se. A decisão não precisa de convencer, precisa apenas de existir.
— Correcto — confirmou o VAR — A análise considerou o enquadramento global do lance. O protocolo foi cumprido.
Houve então um breve silêncio, interrompido apenas pelo som da repetição do lance em 12K.
Newton aproximou-se do ecrã, apontando com o dedo:
— Mas o pé atinge claramente o tornozelo!!
O VAR ampliou a imagem.
— Ou talvez o tornozelo tenha decidido aproximar-se do pé — replicou o VAR,,impassível — A análise é multidimensional.
Kafka fechou o caderno, satisfeito.
— É sabido que a clareza dos factos nunca garantiu clareza do veredicto. Não se discute intenção, nem mecânica. Discute-se posição. A culpa não nasce do acto em si, mas da circunstância. E a circunstância é soberana. A realidade não é negada, é reinterpretada até colaborar.
Newton resignado, declarou.
— Peço formalmente férias. As minhas leis não estão preparadas para este campeonato.
— Pedido registado — respondeu o VAR. — Será analisado após verificação protocolar.
Lá fora, o penálti foi convertido. O jogo seguiu. O resultado ficou.
O tornozelo, esse, aprendeu que, em Portugal, ser atingido não significa ter direitos.
E o VAR reafirmou a sua natureza metafísica: não corrige a realidade, reconfigura-a.