Ao ouvir o discurso de Leão XIV nas Cortes espanholas, dei por mim a pensar em algo que, à primeira vista, parece distante da política e da filosofia moral: o futebol.
O Papa recuperou uma ideia que remonta à Escola de Salamanca, fundada há quase cinco séculos por teólogos e juristas como Francisco de Vitoria. Num tempo em que reis e impérios se julgavam senhores absolutos do destino dos homens, Vitoria ousou defender que existiam limites ao poder, porque a dignidade humana e a justiça não dependiam da vontade dos governantes. Foi uma lição revolucionária no século XVI e continua a sê-lo hoje.
Em Madrid, Leão XIV recordou precisamente isso: que nem toda a autoridade é legítima apenas porque possui força, votos ou reconhecimento formal. Há valores que a precedem e que lhe impõem limites. Há princípios que nem a maioria pode revogar nem o poder ignorar sem perder legitimidade.
A mesma reflexão pode ser aplicada ao futebol. Pode parecer um salto improvável. Não é.
Durante muito tempo, o futebol foi uma das mais autênticas expressões da cultura popular. Não pertencia aos governos, nem aos grandes grupos económicos, nem aos centros de poder. Pertencia às pessoas — aos bairros, às fábricas, às famílias — que o viviam nos campos improvisados, nas ruas e nas memórias partilhadas. Era um jogo sem distância entre quem jogava e quem via. Os clubes eram instituições antes de serem marcas. Os adeptos eram protagonistas antes de serem consumidores. E o jogo era uma celebração coletiva antes de se transformar num produto.
Era, na expressão inesquecível de Eduardo Galeano, a mais importante das coisas menos importantes. E talvez por isso tenha sobrevivido a guerras, crises e divisões ideológicas: porque era um espaço onde o povo se reconhecia a si próprio.
Mas também aqui o poder acabou por encontrar caminho para entrar.
O Mundial é a expressão máxima do futebol do povo e a forma mais visível de uma transformação que se manifesta também nos clubes, e que o tem vindo a afastar da sua origem popular. É o momento em que o jogo mobiliza nações inteiras, atravessa classes sociais, suspende fronteiras e devolve ao futebol a sua dimensão mais genuinamente popular. É também aí que a inversão se torna mais evidente. Cada vez mais, a competição serve de palco a dirigentes, patrocinadores e líderes políticos, enquanto os adeptos são reduzidos ao papel de figurantes da festa que ajudaram a criar.
A imagem de Gianni Infantino a prestar deferências públicas a Donald Trump não vale apenas pelo episódio em si, mas pelo que simboliza: uma nova aristocracia que fala em nome dos adeptos com a mesma convicção com que negocia sem eles. Como os antigos cortesãos, também hoje as grandes instituições do futebol procuram legitimação junto dos centros políticos e económicos. Não porque deles dependam formalmente, mas porque sabem que é ali que se decide a influência. Mudaram os trajes. Não mudou a lógica.
E o adepto comum percebe isso sem necessidade de relatórios ou estatísticas. Percebe quando o preço dos bilhetes afasta famílias inteiras dos estádios. Percebe quando os horários dos jogos são definidos para servir audiências globais e não comunidades locais. Percebe quando os clubes deixam de ser património afetivo para passarem a ser ativos financeiros. Percebe quando os estádios deixam de ser casa para se transformarem em centros comerciais com relva.
O futebol tornou-se especialista numa arte muito contemporânea: invocar o povo enquanto organiza cuidadosamente a sua irrelevância. Os adeptos são celebrados nos anúncios. São homenageados nos vídeos institucionais. São exaltados nos discursos. E depois são colocados na fila das prioridades, atrás dos patrocinadores, das plataformas de streaming, dos interesses geopolíticos e das estratégias comerciais. Mantém-se a retórica da pertença. Enfraquece-se a realidade da participação.
Leão XIV alertou ainda para os perigos da “cultura do descarte”, uma sociedade que abandona aquilo que já não considera útil ou rentável. Também o futebol parece ter desenvolvido a sua própria versão dessa lógica: descartam-se tradições, identidades locais, acessibilidade e até a centralidade dos adeptos, sempre que estes se tornam obstáculos à maximização do lucro.
Tudo tem um preço. Tudo é negociável. Até aquilo que, durante gerações, parecia pertencer a todos.
E é por isso que a pergunta permanece, quase intacta, como há cinco séculos na Escola de Salamanca: existe algum limite para o poder? Existe algo que não possa ser comprado, instrumentalizado ou subordinado à conveniência dos mais fortes?
Se a resposta for negativa, então o futebol deixará de ser um património popular para se tornar apenas mais um produto de entretenimento e influência. E quando até o jogo que nasceu nas ruas aprende a ajoelhar-se perante os poderosos, talvez isso não diga apenas algo sobre o destino do futebol, mas também sobre a lógica do mundo que o rodeia — e que nos rodeia.
A tradição de Salamanca lembra-nos que o poder não é absoluto.
A sensibilidade de Galeano lembra-nos que o jogo precisa de liberdade.
Entre estas duas ideias abre-se a tensão do nosso tempo: um mundo que celebra o povo enquanto o afasta, que exalta o futebol enquanto o reconfigura, que promete pertença enquanto organiza distância.
E é nessa fricção que o futebol continua a ser mais do que futebol. Não por aquilo em que está a tornar-se, mas por aquilo que ainda resiste a deixar de ser.
Porque o verdadeiro risco não é que o futebol deixe de falar do povo. O verdadeiro risco é que continue a falar dele enquanto aprende a viver perfeitamente sem ele. E que aqueles que lhe deram origem acabem, um dia, fora de jogo na sua própria casa.






