Não foi uma tragédia futebolística. Foi pior.
Se alguém dissesse que o Benfica foi à Suíça fazer turismo em vez de jogar futebol, seria difícil contrariar.
O St. Gallen, um clube que provavelmente gasta menos em relva do que o Benfica em gel para o cabelo de alguns jogadores, deu uma lição de organização, intensidade e, acima de tudo, vontade. Enquanto isso, o Benfica parecia preso numa reunião interminável sobre "processos", esquecendo-se do pequeno detalhe de que o objectivo do futebol continua a ser jogar à bola.
Parabéns à bola, aliás. Fez uma excelente exibição. Andou muito, circulou bastante e nunca se recusou ao trabalho. Só teve o azar de estar rodeada por um grupo de suíços que insistia em estragar tudo com golos.
Já o Benfica trouxe a sua habitual investigação científica: descobrir quantos passes são necessários até uma jogada perder completamente o sentido.
A resposta parece ser: muitos.
É que o Benfica tem tantos processos que qualquer dia entra em campo com uma lista de compras.
A equipa troca a bola, troca a bola, troca a bola... e nós trocamos de humor.
Não faltou tempo. Não faltou espaço. Não faltou bola.
Faltou aquela pequena coisa sem importância: fazer alguma coisa com ela.
O adversário corre. O Benfica pensa.
O adversário remata. O Benfica prepara.
O adversário joga. O Benfica organiza.
É uma filosofia bonita, se o jogo fosse um documentário sobre circulação de bola. Só que não era. Era uma eliminatória europeia que convinha ganhar.
Porque no futebol há uma regra antiga: quem marca mais golos costuma ter melhores hipóteses.
Uma teoria polémica, eu sei.
Talvez um dia alguém consiga explicar ao Benfica que uma baliza adversária não é uma peça decorativa do estádio. Está ali para ser utilizada.
Mas há que reconhecer mérito: a equipa é consistente. Mantém uma identidade. Joga sempre da mesma forma, independentemente do adversário, do resultado ou da urgência.
É reconfortante.
Sabemos sempre o que esperar: 70% de posse, 200 passes para o lado e aquela sensação de que o golo está sempre "a chegar". O problema é que o golo, pelos vistos, vem de transportes públicos.
Entretanto, o adversário já marcou, já festejou e já teve tempo para organizar a defesa.
O Benfica continua a preparar.
Prepara tanto que qualquer dia apresenta um plano estratégico para preparar a preparação.
O St. Gallen não ganhou por acaso. Ganhou porque correu mais, pressionou
melhor, reagiu melhor à perda, ocupou espaços, pensou mais depressa. Não precisou de fazer um jogo perfeito. Bastou-lhe fazer o básico.
O St. Gallen jogou para ganhar. O Benfica teve bola.
E o futebol tem destas coisas.
Ganha quem percebe para que é que a bola serve.