O Benfica tinha uma missão simples: desfazer a asneira da primeira mão e garantir a passagem. E cumpriu-a com distinção, embora tenha achado por bem oferecer uns minutos de sofrimento aos adeptos antes de começar a jogar.
O St. Gallen entrou melhor, sem medo, e aproveitou um Benfica algo nervoso, com passes errados e pouca velocidade na circulação da bola. Durante os primeiros minutos, os suíços conseguiram acreditar que ainda podiam discutir a eliminatória, enquanto Trubin voltava a testar a resistência cardíaca da bancada.
Felizmente, o susto durou pouco.
O Benfica começou a ganhar o meio-campo, subiu linhas e passou a jogar muito mais perto da baliza suíça. Barreiro tomou conta das operações, Sudakov começou finalmente a mostrar serviço, Bah e Dahl deram outra profundidade ao jogo e Pavlidis decidiu que já chegava de conversa.
O primeiro golo mudou completamente o jogo. O Benfica ganhou confiança, o St. Gallen perdeu-a e a eliminatória começou a inclinar-se definitivamente para o lado encarnado. Na segunda parte, o segundo golo praticamente acabou com qualquer dúvida, a expulsão dos suíços tornou a tarefa ainda mais simples e, a partir daí, foi uma questão de saber até onde podia ir o marcador.
Pavlidis fez quatro golos e foi naturalmente a figura da noite, mas a vitória explicou-se também pela forma como o Benfica reagiu ao mau início. A equipa mostrou personalidade, foi claramente superior durante grande parte do jogo e já deixou ver alguns sinais do trabalho de Marco Silva.
A única nota menos positiva surgiu nos últimos minutos. Com tudo decidido e um homem a mais, o Benfica relaxou demasiado e ainda permitiu ao St. Gallen criar algum perigo. Não teve consequências, mas fica o aviso: contra equipas mais fortes, desligar a ficha pode custar caro.
No fim, missão cumprida. O Benfica virou a eliminatória com uma goleada, voltou a transmitir confiança e segue para a próxima ronda, onde terá pela frente os Hearts da Escócia. O nome é bonito. A eliminatória, para eles, promete ser menos.
Destaques positivos
Pavlidis — Foi o homem do jogo. Quatro golos, muito trabalho e uma exibição daquelas que fazem um ponta-de-lança parecer barato, custe ele o que custar. Marcou de todas as maneiras e ainda fez o favor de jogar para a equipa. Trabalhou como um médio, pressionou como um defesa e apareceu na área como só os grandes avançados aparecem. É por isso que, quando ouço um benfiquista dizer que Pavlidis não serve, apetece-me desatar à bofetada.
Barreiro — Há jogadores que correm muito. Depois há Leandro Barreiro, que parece ter descoberto uma modalidade em que o jogo só acaba quando ele decidir parar. Esteve em todo o lado: recuperou bolas, pressionou, apareceu na área, voltou atrás, voltou a subir e, quando toda a gente pensava que finalmente ia parar para respirar, lá estava ele outra vez a roubar mais uma bola.É o tipo de jogador que nunca será o protagonista dos vídeos de fintas no YouTube, mas que faz os treinadores sorrirem e os adversários suarem. E, se lhe pedissem para vender bifanas ao intervalo, provavelmente aceitava. E, no fim do jogo, ainda era capaz de ir pressionar o autocarro do St. Gallen até ao aeroporto, só para garantir que os suíços não voltavam a tentar uma gracinha imaginária. Se Pavlidis ganhou o jogo na área, Barreiro ganhou-o em todo o lado.
Marco Silva — Talvez o melhor reforço esteja no banco. A equipa começa a mostrar ideias, reage melhor às dificuldades e, acima de tudo, o treinador lê o jogo com calma. Não entrou em pânico quando parexeia que a tremideira ia começar, mexeu na equipa na altura certa e não complicou o que estava simples. Parece pouco, mas os benfiquistas sabem que nem sempre foi assim. Ainda há muito para melhorar, mas, pela primeira vez em algum tempo, parece haver um plano e jogadores a segui-lo.
Rafa — Continua a ser dos poucos que pega na bola e muda o ritmo do jogo. Fez a assistência para o primeiro golo, acelerou quando era preciso e deixou a defesa suíça várias vezes em sentido. Quando está inspirado, o Benfica joga mais depressa.
António Silva — Que maneira de se despedir da Luz. Fez uma exibição à capitão e mostrou a personalidade que sempre se reconheceu nele. Defendeu, construiu, ganhou duelos, assumiu responsabilidades e houve alturas em que parecia farto de esperar pelos médios e resolveu levar a equipa para a frente. Agora segue outro caminho e só há uma coisa a dizer: Toda a sorte do mundo, miúdo!. E desculpa. Desculpa porque, às vezes, esquecemo-nos de que ainda és um miúdo e esperamos a perfeição todas as semanas. Obrigado pelo que deste ao Benfica. E quem sabe, até um dia.
Sudakov — Melhor, bastante melhor. Muito mais participativo e finalmente a assumir o jogo. Ainda assim, continua a dar a sensação de que há ali um jogador capaz de muito mais.
Lenglet — Muito seguro defensivamente, resolveu problemas quando foi preciso e ainda teve tempo para marcar um golaço. Esperemos que continue assim.Kaminski — A primeira parte foi pouco conseguida, mas cresceu bastante depois do intervalo. Melhorou as decisões e teve participação importante no segundo golo. e mostrou que pode ser útil quando simplifica o jogo.
Bah — Duas assistências, muita profundidade e personalidade. Agora falta convencer alguém de que também existe uma modalidade chamada "defender". Quando sobe, entusiasma, quando tem de correr para trás, às vezes parece que o GPS recalculou demasiado tarde.
Lukebakio — É um daqueles jogadores que faz três adversários parecerem pinos depois chega a altura de decidir e parece que muda de canal. Técnica tem. Velocidade também. Falta descobrir que o futebol é um jogo coletivo e que muitas vezes, a melhor finta é um passe simples. Mas belíssima assistência para o golo do Lenglet.
Destaques não tão positivos:
Trubin — Faz uma defesa impossível e, cinco minutos depois, complica um cruzamento banal. Não evoluiu nada neste tempo de Benfica. Começa a ser mais problema do que solução.
Barrenechea — Melhorou com bola e até fez um jogo aceitável. O problema continua a ser sem ela. Um médio defensivo não recebe medalhas por passes certos, recebe elogios quando os avançados adversários deixam de encontrar espaço entre o meio-campo e os centrais. É aí que está o verdadeiro trabalho, não deixar o adversário jogar de pantufas no espaço mais perigoso do campo.
Os outros:
Dahl foi crescendo e apareceu melhor na segunda parte.
Ríos entrou bem, ganhou o penálti e mostrou disponibilidade.
Dedic entrou com vontade de acelerar.
Schjelderup tentou mexer no jogo, mas teve pouco tempo.
Durán praticamente não teve oportunidades para mostrar serviço.



