terça-feira, 7 de abril de 2026

Assim Não Vamos Lá

 

O empate frente ao Casa Pia não foi apenas mais um tropeço numa época irregular do Benfica — foi a confirmação clara de um ciclo falhado. Num momento em que qualquer deslize seria fatal, a equipa apresentou-se apática, previsível e, sobretudo, incapaz de assumir a responsabilidade que o contexto exigia. O jogo de ontem expôs, sem filtros, as fragilidades de um conjunto emocionalmente desligado das exigências de lutar por títulos.

A exibição revelou problemas que se arrastam há demasiado tempo. A circulação de bola foi lenta e previsível, incapaz de desmontar uma organização defensiva disciplinada. No último terço, o Benfica mostrou-se estéril, dependente de iniciativas individuais e sem mecanismos colectivos consistentes. Ainda mais alarmante foi a falta de intensidade sem bola, um sinal claro de uma equipa perdida, sem agressividade nem compromisso competitivo. E isso leva-me inevitavelmente ao treinador.

O talento do Mourinho para apontar erros alheios é inegável, mas, por mais certeiras que sejam as suas observações, correm o risco de se tornar mais em espectáculo do que instrumento de mudança. As palavras impactam, provocam e entretêm, mas não alteram resultados nem conseguem dar em campo aquilo que falta: eficácia, consistência e liderança.

Este resultado não só afasta de vez qualquer hipótese, ainda que remota, de lutar pelo título, como nos deixa completamente dependentes de terceiros para garantir o segundo lugar e, por conseguinte, o acesso à Liga dos Campeões, com todas as implicações financeiras e desportivas bem conhecidas.

Mas reduzir o problema ao que se passou ontem seria simplista. O Benfica não falha por falta de recursos, falha apesar deles. Com uma das melhores estruturas do país, estabilidade financeira e planteis com talento, o clube continua incapaz de construir uma base competitiva sólida e duradoura. A gestão desportiva continua marcada por decisões erráticas: vendas prematuras, contratações pouco coerentes com as necessidades da equipa e mudanças constantes de rumo que impedem qualquer consolidação.

A formação, um dos maiores trunfos do clube, é um exemplo gritante dessa incoerência. O Benfica produz talento reconhecido a nível internacional, mas raramente o integra de forma consistente na equipa principal. A pressão financeira e a lógica de mercado sobrepõem-se à lógica desportiva, e o resultado é um círculo vicioso, forma-se bem, vende-se cedo, e recomeça-se constantemente. Assim, não é possível criar uma espinha dorsal competitiva capaz de garantir ambições reais, tanto a nível interno como europeu.

Perante este cenário, é redutor — e até conveniente — apontar factores externos como arbitragem ou contexto competitivo. A realidade é muito mais incómoda: os principais problemas estão dentro do clube. O planeamento falha, a execução é inconsistente e os erros repetem-se sem sinais claros de aprendizagem. Há uma cultura de gestão que parece mais focada em equilibrar contas e reagir ao imediato, em vez de construir um projecto desportivo robusto.

Dentro de campo, isso traduz-se em equipas sem identidade clara que alternam entre momentos de domínio ilusório e quebras abruptas, evidenciando falta de coesão táctica e emocional. Falta um modelo de jogo consolidado, falta capacidade de adaptação e, acima de tudo, falta exigência continuada.

O mais perturbador é que este já não é um problema conjuntural. É estrutural. E enquanto não houver uma mudança radical na forma como o clube se pensa a si próprio, o Benfica continuará preso neste ciclo de promessa e desilusão. 

O Benfica tem tudo para liderar de forma inequívoca: talento, infra-estruturas, capacidade financeira e uma massa adepta fiel. Mas isso, por si só, não ganha títulos. É preciso estratégia e coragem para tomar decisões que priorizem o sucesso desportivo a médio e longo prazo. 

Sem essa mudança, o futuro será apenas uma repetição do presente. Não se trata apenas de jogadores ou do treinador, mas de uma cultura competitiva que parece acomodada à mediocridade. A dimensão do Benfica não pode aceitar exibições como a de ontem como algo circunstancial, já não o são. São, infelizmente, sintomáticas.

Se não houver uma reflexão séria e estruturada, o risco não é apenas perder um campeonato ou um acesso europeu, é consolidar um ciclo de declínio que contrasta de forma flagrante com os recursos e a história do clube.

Perante isto, a questão deixa de ser retórica: estará o Benfica realmente interessado em construir um futuro sólido, baseado numa mudança de paradigma, ou se limita, ano após ano, a gerir um presente para não perder?

Não sei quanto a vocês, mas a resposta, para mim, é óbvia e muito preocupante.

E, ainda assim, para se reerguer, o Benfica só precisa de se assumir a si próprio.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Casa Pia vs Benfica - Liga Betclic - 22 ª Jorna


 Casa Pia ___ * ___ Benfica
...

Árbitro:- Hélder Carvalho ( AF Santarém )
Árbitros assistentes:- José Mira, Alexandre Ferreira
4º árbitro:- Diogo Rosa
VAR/AVAR:- Cláudia Ribeiro, Diogo Pereira
Delegados:- João Damásio, Carlos Carmo
Observador:- Humberto Gonçalves
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Constituição das equipas:
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CASA PIA:Sequeira, André Geraldes, Sousa e João Goulart; Larrazabal, Iyad Mohamed, Rafael Barbosa e Rosas; Livolant, Cassiano e Tiago Morais.
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SUPLENTES DO CASA PIA: Ivan Mandic, Abdu Conté, Kelian Saka, João Marques, Oluwakorede Osundina, Kevin Machado, Kaique Lima, Abdu Dafé e Cláudio Mendes.
…/...
BENFICA: Trubin; Bah, Otamendi, António Silva e Dahl; Barrenechea e Richard Ríos; Lukebakio, Rafa e Schjelderup; Pavlidis.
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SUPLENTES DO BENFICA: Samuel Soares, Banjaqui, Gonçalo Oliveira, Sidny Cabral, Manu Silva, Prestianni, Sudakov, Ivanovic e Anísio Cabral.

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Carrega Benfica

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quinta-feira, 2 de abril de 2026

Entre Gravatas e Soundbytes: O Jogo Que Nos Roubaram


Ser adepto de futebol em Portugal é assistir, impotente, à morte do que faz o futebol mágico: o jogo em si. O que devia ser paixão e emoção no relvado foi sendo sequestrado por um espectáculo degradante fora dele. De entre todos os prismas que se podem examinar, e são muitos, o comentário televisivo, é apenas mais um insulto escancarado ao futebol, uma prova do ridículo a que chegámos. Já não é só cansativo, é frustrante, rouba-me a alegria que antes sentia.

Faminto por soundbytes, infiltra-se por cada frincha, agride-nos diariamente, condensado em estúdios onde supostos especialistas analisam cada detalhe como se fossem previsões retroactivas. Como consequência, antes ou depois do jogo, entre jogos, a todas as horas, assistimos a uma ópera bufa representada em salas forradas a leds e indignação reciclada encenada por antigos protagonistas ou estudiosos da bola, com gravatas mais tácticas do que qualquer 4-3-3, prontos a dissecar o que nunca existiu e a provar o que ninguém viu.

Neste histriónico conclave, ficamos a saber que o médio-centro foi na verdade um avançado interior disfarçado de lateral emocional, o extremo era afinal um falso ala existencialista, o trinco tinha vocação para poeta maldito incompreendido e o treinador ousou reinventar a roda quadrada com um losango trapezoidal de inspiração vagamente nórdica. Fala-se de linhas subidas e blocos baixos como se fossem signos cósmicos, tudo muito científico, com gráficos que piscam como constelações nervosas e setas a perseguirem jogadores congelados ou saltitantes numa dimensão onde a física se curva às opiniões. Uns falam em intensidade suficiente. Outros em disputa normal. E há sempre a “dinâmica do lance”, expressão que serve para tudo e para nada, mas dita com a gravidade de quem acredita ter acesso a uma verdade superior do jogo.

E pelo meio, as beatas do futebol, cada uma com uma obsessão diferente, e todas absolutamente convencidas de que essas obsessões são a chave última para explicar o jogo.

Um não fala de outra coisa senão de redes sociais: cada tweet do avançado, cada story do médio, cada publicação, é escrutinada como se fosse um relatório táctico confidencial. “Reparem na hashtag que o defesa postou esta manhã, indica claramente que ele vai falhar o próximo passe!” declara com ar de revelação divina.

Outro vive para as entrevistas e declarações públicas: interpreta cada palavra como se fosse um oráculo. “O guarda-redes disse ‘estamos focados’, mas a pausa antes do verbo revela ansiedade… isto vai alterar a eficácia do próximo remate”, garante.

Um terceiro mergulha nos bastidores contratuais: cláusulas, renovações, negociações, cada papel assinado é apresentado como determinante. “Se o defesa-central assinou a cláusula X, inevitavelmente a equipa adversária sofrerá um golo aos 73 minutos”, afirma com convicção inabalável.

E o quarto, porque nestes painéis há sempre mais um, analisa todos os detalhes triviais com solenidade inexorável: a roupa do treinador, o sabor do café, a playlist pré-jogo, a posição das garrafas de água, o ângulo da sombra das bandeiras, o padrão das meias, a temperatura da bola, o número exacto de migalhas na bancada, a marca das chuteiras do jogador que não foi convocado, a intensidade da luz no estádio, a sequência de aplausos do público, o desenho das redes, até a inclinação da relva no centro do campo. ““Se o café estiver demasiado amargo, o avançado vai falhar o penálti! Se a luz mudar de tonalidade em 0,2%, o passe do médio será desviado!” E se a relva estiver ligeiramente inclinada para a esquerda, o guarda-redes vai mergulhar para o lado errado!” sentencia.

E depois há o comentador isento, figura que se apresenta como farol de equilíbrio, mas que tantas vezes apenas disfarça, sob linguagem polida, os mesmos enviesamentos e insinuações que alimentam o ruído. Fala com cautela, invoca a objectividade, mas raramente escapa ao que diz evitar. “Não quero levantar polémicas, mas…”, começa, antes de levantar todas. “É apenas uma leitura técnica…”, acrescenta, enquanto desliza suavemente para o território da opinião mascarada de evidência.

Ainda assim, importa reconhecê-lo, nem todo o comentário é vazio. Existe análise séria, gente que estuda o jogo com rigor e que realmente contribui para o compreendermos melhor. O problema é que essa voz raramente consegue competir, em visibilidade e influência, com o registo circense que domina o espaço mediático.

É um atoleiro, jornada após jornada, entre indignação programada e análise microscópica do irrelevante nesta trágico-comédia em que se transformou o futebol português. Cada passe, cada remate, cada golo soa agora como uma nota desafinada numa partitura que não lhes pertence, orquestrada nos bastidores, arrancando do futebol tudo o que era bonito e simples.

No fim, a sensação é esmagadora e dolorosamente triste, o jogo, a sua espontaneidade, a sua beleza, foi engolido pelos delírios dos que pensam dominar aquilo que, por natureza, só a bola decide.

E eu, que só queria ver noventa minutos de futebol — um remate torto, um drible improvável, um golo que não precisa de tradução — dou por mim a fugir do ruído como quem protege a última centelha de um prazer antigo. Porque, no meio de tanto excesso, resta cada vez menos espaço para o essencial, sentar-me, olhar para o relvado e acreditar que o jogo ainda me pertence.  

domingo, 29 de março de 2026

 O CH(IQU)EIRO DOS HOOLIGANS


O Benfica, vê confirmado o castigo a Dedic, dois jogos, porque este e um adversário se agarraram mutuamente, tendo sido expulsos pelo metralha de serviço...Saíram do campo calmamente, quase lado a lado !!!
O Benfica come e cala, e quase pede desculpa, por ter sonhado que o pedido de despenalização de pelo menos um jogo iria ser atendido. Tanto o jogador do Benfica como o do Arouca terão mesmo de cumprir os dois jogos de seguida.

Num jogo dos sapos, o seu capitão, no chão, atinge com os pitons a cabeça do adversário...Queixa apresentada...e Sueco arruaceiro ilibado !!! Lembram-se das "festinhas entre Dedic e Trezza ??

Ainda nos sapos, Suarez, faz repetidamente com as mãos, o gesto de roubo, o metralha do apito pode não ter visto, mas, os cumplices no VAR de certeza que fingiram não ver. 
Castigo ? Um joguinho a cumprir em casa, por ter chamado a equipa de arbitragem de ladrões. Parece que gostaram do apelido.
Lembram-se do castigo de Dedic e Trezza ??

Num recente jogo do Benfica, António Silva, com a braçadeira de capitão, vê um cartão amarelo por parte do árbitro que o tirou do jogo seguinte. A curiosidade, é que o Silva ainda se dirigia para o metralha dragão, estando quase a cinco metros quando foi admoestado...!! Tem tudo a ver com os gritos que o Sueco capitão dos sapos, oferece aos ouvidos dos metralhas em todos os jogos.
Nesse mesmo jogo, o mesmo dragão metralha, afasta de forma grosseira e brutamente o Dahl, empurrando-o. O que aconteceria se fosse ao contrário ???

Num jogo do clube da fruta, um jogador, William Gomes, tem uma entrada assassina sobre um adversário. Acerta-lhe de tal maneira na cabeça e face, que o jogador sangrou abundantemente. 
Castigo ? Dois joguinhos...um cumpriu em casa...foi despenalizado para o jogo fora, através das famosas Providências Cautelares. Com o processo de recurso a decorrer, o "karateca" está a aguardar o melhor momento para cumprir o segundo jogo de castigo, que será também em casa certamente...e se o cumprir. 
Lembram-se do castigo a Dedic por causa de uma ligeira troca de mimos com um adversário ???

Haveriam ainda muitos mais exemplos de dualidade de critérios utilizados...Mas por agora fico-me por aqui. Aguardo "cenas" dos próximos capítulos. Tenho a certeza que as haverá.

Noutro âmbito, parece que os sapos tomaram conhecimento, do típico gesto de boas vindas com que a  escumalhada corrupta costuma receber quem lhe faz frente. Tal qual lhes aconteceu no futebol, com o Benfica de Eriksson e César Brito...a derrota foi o resultado. Bem se lixaram...com "f".
Mas são dois clubes que estão bem um para o outro. Ambos, têm na liderança dois presidentes holligans, que disputam a cadeira do "poder" subterrâneo do futebol Luso.
Atitude idênticas ? Quando é para marrar como Benfica, estão sempre alinhados.
Em termos de lisura, ou honestidade, estão nos antípodas do que tal deve ser.

O ser energúmeno da colectividade da frutóchocolate, resolveu escoicinhar com o maior Clube Português, recordando os mails que roubaram, truncaram e colocaram a circular. E pelo qual foram condenados. Este triste imbecil, mesmo que tente falar bem e vista um fato, nunca conseguirá deixar de cheirar às bufas de corrupção com que conviveu durante anos...e tenta de novo colocar em prática sob um falso manto de lisura. 

Do outro idiota, o rei sapo, falso sonsinho e falso corajoso, entre muitas evidências de imbecilidades e ódio ao Glorioso, relembro aquelas cartolinas envolvidas em fita adesiva médica, que forneceu ao outro traste, o ex presidente a quem tirou o poder com um "golpe de estado", para que este mentisse ao dizer que fora agredido no Estádio da Luz por aqueles objetos.
São seres abjetos. 

As agremiações mais favorecidas pelas arbitragens, e pelas Instancias Desportivas Portuguesas, são as que mais se queixam. Talvez por isso mesmo são as que estão mais próximas de vencer a Liga.

O Benfica, o seu Presidente, parece aquele menino da turma, que mesmo ao saber que lhe roubam os cromos ou o dinheiro para o almoço...pretende continuar a ser visto como o "bem comportado", caladito, sonhador, a pensar que sabe tudo e tem controlo da situação... Está a precisar de uma estalada bem dada, para ver se acorda de vez.


VIVA O BENFICA
SEMPRE PELO BENFICA




quinta-feira, 26 de março de 2026

A Rábula do Critério: Um Desastre Anunciado

 

A arbitragem no futebol actual é, talvez, a mais rocambolesca experiência sociológica já testada em espaço aberto.

Antigamente, o conceito era simples: um árbitro, dois assistentes, vinte e dois jogadores e uma multidão de adeptos firmemente convencidos de que o árbitro estava sempre errado. Era um sistema imperfeito, claro. As decisões eram tomadas em instantes, guiadas por dois olhos humanos, um apito e uma convicção que muitas vezes era mais fé do que certeza. Erros? Muitos. Mas era um processo quase artesanal e que, pelo menos, tinha a decência de acontecer depressa.

Felizmente, tudo isso ficou no passado.
Ou assim nos disseram.

Agora temos a tecnologia. E com ela um sistema altamente sofisticado composto por árbitros em campo, árbitros assistentes, quarto árbitro, operadores de vídeo, técnicos, monitores, software, linhas digitais, câmaras de alta definição, ultra slow motion. Tudo alinhado para garantir que nada escape: se um árbitro não viu, há câmaras. Se as câmaras não bastarem, haverá repetições. Se as repetições não forem suficientes, haverá ângulos. Se os ângulos falharem, haverá zoom. E, de facto, nada escapa, excepto, com uma frequência quase comovente, o essencial.

A grande estrela desta revolução chama-se VAR - Video Assistant Referee - embora por vezes pareça mais um acrónimo de “Vagamente Aparenta Rever”.

E é fascinante. Porque o VAR vê. Claramente vê. Revê. Amplia. Roda a imagem. Congela o frame. Talvez até faça zoom na alma da jogada. Mas depois acontece algo de extraordinário no processo: ver não implica necessariamente ter visto.

É uma espécie de Teoria das Cordas aplicada ao futebol. Uma verdadeira Twilight Zone onde tudo e nada acontece ao mesmo tempo: falta e não falta, toque e não toque, penálti e não penálti, vermelho e “siga o jogo”. Um ecossistema perigosamente pendurado na interpretação. E o VAR, como um cientista prudente, prefere não colapsar a realidade.

A promessa era simples: ver melhor para decidir melhor. O resultado foi outro: ver mais para duvidar mais. O futebol, que vivia de impulsos, passou a viver de pausas. E nessas pausas nasceu uma nova linguagem, uma espécie de novilíngua arbitral feita de expressões como “erro claro e óbvio”, “intensidade do contacto”, “posição natural do corpo”. Termos que soam científicos, mas funcionam mais como arte abstrata: cada um vê o que quer. 

É o início da rábula, com o futebol moderno a presentear-nos com a sua criação mais inspirada: o critério. 

O critério é uma coisa peculiar. Todos o invocam: analistas, comentadores, árbitros, dirigentes. Dizem que é a bússola moral do jogo, a lei invisível que garante coerência. Na prática, o critério comporta-se mais como o clima.

Muda de estádio para estádio.
De jogo para jogo.
Às vezes até de minuto para minuto.
E, em dias particularmente inspirados, de lance para lance. 

Num sábado à tarde, num determinado estádio, um defesa encosta ligeiramente no avançado dentro da área. Um toque leve, quase educado. O avançado cai. O árbitro aponta imediatamente para a marca dos onze metros com a segurança de quem acaba de confirmar uma lei da física.

Contacto evidente.
Penálti claríssimo.
- Segundo o critério.

No dia seguinte, noutro estádio, ocorre uma jogada em tudo semelhante. Talvez até mais evidente. O defesa puxa a camisola. Há contacto. O avançado cai. O estádio levanta-se. Os jogadores protestam. O árbitro faz o gesto solene da mão no ouvido.

E então começa o ritual.

A jogada passa no ecrã.
Uma vez.
Depois outra.
Depois em câmara lenta.
Depois em ultra slow motion.
Depois com zoom.
Depois de outro ângulo.
Talvez mais uma repetição, só para garantir.

Trinta segundos.
Um minuto.

Dois.
Três minutos.
And counting…

Finalmente chega a decisão: “Não há intensidade suficiente"


E é aqui que entra em cena a figura mais consistente do futebol moderno.

O erro.

Não corre. Não protesta. Limita-se a atravessar o relvado com a tranquilidade de quem já fez carreira na área. Ninguém o vê, o que, de certa forma, é coerente. Pára ao lado do árbitro e apresenta-se: “Olá, eu sou um erro”.  Fica ali um instante, à espera de ser expulso, corrigido ou pelo menos reconhecido. Nada. O árbitro mantém-se imóvel, dedo no ouvido, concentrado em tudo menos naquilo que acabou de ouvir. O erro suspira. Não de frustração, mas de rotina. Já percebeu que neste sistema não é uma falha, é parte do processo.

E assim, no futebol português já não basta perguntar “houve falta?”. Seria demasiado simples. Agora o que importa é gerir o erro, acomodá-lo, rodeá-lo de subtilezas:

Foi contacto suficiente?
Foi contacto relevante?
Foi contacto negligente?
Foi contacto imprudente?
Foi emocionalmente adequado ao contexto da jogada?

Nasce então um outro conceito espantoso da arbitragem contemporânea: o erro claro e óbvio.

Um erro claro e óbvio não é simplesmente um erro que todos vêem. Não. Isso seria demasiado fácil. Um erro claro e óbvio é um erro que, depois de visto, revisto, ampliado e discutido… continua misteriosamente a não ser claro o suficiente para ser considerado óbvio. 

Não sabemos qual era exactamente o critério vigente naquele jogo específico daquele fim de semana particular, mas, calma, não é incoerência. É o tal critério interpretativo contextual, uma expressão chique que basicamente significa que tudo depende… de muita coisa. Não sabemos objectivamente de quê, mas sabemos que foi analisado com uma profundidade que surpreendeu até o próprio lance.

Mas o VAR mantém a serenidade zen de um monge budista.
Ele viu.
Talvez tenha visto.
Ou pode ter visto algo diferente do que vimos.
Ou então viu exactamente o que vimos…e decidiu que ver aquilo não conta como ver aquilo.

No fim, tudo permanece estranhamente familiar:
os adeptos continuam furiosos,
os treinadores continuam indignados,
os comentadores continuam a fazer o que os comentadores fazem.

Porque o VAR português é essa entidade extraordinária, simultaneamente omnipresente e míope, cirúrgica e contemplativa, tecnológica e profundamente espiritual. E é na pedagogia que se revela em todo o seu esplendor. Sempre que decide, explica-se que o protocolo foi cumprido. Se interveio, é porque tinha de intervir. Se não interveio, é porque não podia intervir. Logo o VAR nunca erra, limita-se a aplicar uma filosofia operacional...

…mas onde, de vez em quando, que é como quem diz, todas as semanas, acontece uma anomalia quântica: ninguém viu. 

E assim seguimos, felizes e tecnologicamente avançados, num desporto onde há 40 câmaras, três árbitros, um VAR, um AVAR, linhas digitais e inteligência artificial…

…até que, num jogo qualquer, um lance decide um campeonato. 

Não pelo que aconteceu, mas pelo que foi convenientemente ignorado. 

E se há imagem mais fiel do nosso campeonato, talvez seja essa: o detalhe que decide, a falta que não chega a ser, o critério que oscila como uma biruta em dia de vento. 

Prometeram-nos um futebol higienizado, cirúrgico, imune ao erro humano. A tecnologia viria como redenção, como bálsamo para décadas de suspeitas. Mas o que se descobriu é que a câmara não elimina a interpretação, apenas a amplifica. 

Há lances que, revistos dez vezes, continuam a depender do ângulo. Há contactos que, ampliados até à exaustão, parecem ora agressão, ora acidente de percurso. E nesse território pantanoso floresce o eterno calcanhar de Aquiles do futebol português: não a falta, mas o critério; não o erro, mas a desigualdade percebida do erro.

O problema nunca foi apenas a decisão. Foi a sensação. A ideia persistente de que a balança raramente oscila ao acaso. De que o benefício da dúvida tem morada conhecida. E assim, cada vitória arrancada na sombra de um lance duvidoso alimenta não só a tabela classificativa, mas também o arquivo invisível das desconfianças.

No fim, o resultado fica. A polémica também. Porque enquanto houver margem para interpretar, haverá margem para suspeitar. E nenhuma tecnologia, por mais sofisticada, consegue arbitrar a fé. 

E o erro?
O erro está mais confortável do que nunca.

Já não entra de rompante. Não precisa. Agora chega acompanhado, validado, enquadrado por um protocolo que o legitima. Já não é um intruso, foi domesticado, tornou-se parte do sistema. 

 

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