Desde que o Prestianni chegou ao Benfica que não consigo evitar lembrar-me do Coyote e do Bip Bip.
O Prestianni chegou ao Benfica como o Coyote, cheio de ideias, cheio de vontade, cheio de planos para apanhar o jogo… mas quase sempre a um detalhe de chegar tarde ao momento certo. Corria muito, insistia muito, tentava muito, mas o futebol parecia estar sempre meio segundo à frente dele...bip bip…
Durante muito tempo, foi o jogador do “quase”. Quase decide bem, quase acerta no timing, quase entra no jogo como deve ser. Tinha talento a transbordar, daqueles que se notam ao primeiro toque, e aquele futebol de rua que se percebe na ginga, na bola colada ao pé, na coragem de ir para cima e no constante morder dos calcanhares aos adversários.
Mas faltava-lhe qualquer coisa menos visível e muito mais decisiva: fazer do talento uma coisa de todos os dias.
O futebol estava lá, era evidente, mas ainda não tinha o tempo do jogo.. Como se o corpo já soubesse acelerar, mas o pensamento ainda estivesse a ajustar o mapa. E lá ia ele, como o Coyote convencido de que “agora é desta”… até o Bip Bip aparecer e passar por ele a assobiar…bip bip...
E não, isto não mudou de um dia para o outro. Não houve magia nem um clique repentino. Houve algo bem mais discreto e, por isso mesmo, mais valioso. Disponibilidade para aprender, trabalho, maturação e muita pancada.
Foi perceber que não chega ser diferente, é preciso ser útil. Que não basta aparecer quando a bola está no pé, também é preciso estar lá quando ninguém está a olhar.
E, aos poucos, isso foi entrando nele.
Sem perder a leveza nem a velocidade, o Prestianni começou a perceber o jogo de outra forma. Já não corre atrás do lance, antecipa-o. Já não força o momento, reconhece-o. A intensidade deixou de ser apenas correr mais e passou a ser também saber quando acelerar, quando esperar e onde aparecer.
E, como quem não quer a coisa, deixou de ser o Coyote que tudo persegue para se tornar o Bip Bip que aparece sempre no sítio certo, no tempo certo, e desaparece antes de o jogo o conseguir apanhar...bip bip… já foste!
Hoje, é outro jogador. Mais simples, mais eficaz, mais dentro do colectivo. Mais esperto sem perder a irreverência. Mais útil sem perder o brilho. Já não joga só quando a bola lhe chega aos pés, joga antes disso, durante isso e depois disso. Deixou de fazer tanto barulho para começar a fazer sentido. E nota-se. Nota-se muito.
Há outra atitude ali. De quem percebeu onde está e o que representa estar no Benfica. De quem trocou o “vejam isto” pelo “contem comigo”. E isso, para mim, vale mais do que qualquer tentativa desesperada de um qualquer Coyote a correr atrás dos seus próprios planos.
O Coyote continuou a correr.
O Bip Bip, esse, ficou no Benfica.
bip bip...
Exatamente. É tudo aquilo que Marco Silva parece pretender retirar de Sudakov, mas que está difícil e vamos ver se vai conseguir.
ResponderEliminarMuito bem Prestiani.
Mudar de flanco tb terá contríbuido digo eu que não percebo nada disto...mas sim, temos jogador, que no entanto não deixou de ser franzino como o Rafa e esse facto requer equilibrios na equipa, como a entrada do Circati e Palhinha. Obrigado pelo texto.
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