Há qualquer coisa de profundamente errado numa saída assim. Não apenas pelo momento, mas pelo que ela significa.
Escrevo-o com um gosto amargo na boca, eu que sempre fui uma admiradora confessa de Cristiano Ronaldo. Não uma “ronaldete”, mas uma admiradora genuína de um jogador extraordinário, cuja carreira marcou profundamente o futebol português e mundial.
O abandono extemporâneo da Selecção Nacional é intolerável. Não apenas pelo jogador que é, mas pelo que representa e pelo significado da camisola que vestiu durante tantos anos.
Uma camisola que não pertence a um jogador, por maior que ele seja.
Pertence a Portugal.
E falamos, ainda por cima, do capitão da Selecção Nacional, de quem se exige que honre a camisola que veste.
Camões escreveu: "Erros meus, má fortuna, amor ardente". Há uma aceitação da responsabilidade nestas palavras que não perdeu actualidade. A fortuna muda, os tempos mudam, os papéis mudam. As escolhas, essas, pertencem a quem as faz.
E esta escolha deixa perguntas.
A Selecção não existe apenas para os momentos de glória.
A propósito de tudo isto, vêm-me à memória as palavras de John F. Kennedy, no seu discurso inaugural de 1961:
“Não perguntes o que o teu país pode fazer por ti — pergunta o que podes fazer pelo teu país.”
É difícil não transportá-la para este caso.
Depois de tudo o que Cristiano Ronaldo representou para a Selecção, a questão já não seria saber o que ainda poderia conquistar. Seria saber o que ainda poderia oferecer.
Experiência. Liderança. Presença. Exemplo.
Não lhe caberia necessariamente jogar noventa minutos, ser titular ou conservar um estatuto que o tempo inevitavelmente altera. Caberia, isso sim, decidir se ainda queria estar ao serviço da equipa quando o papel deixasse de ser o de protagonista.
Ronaldo deu muito à Selecção. O futebol português e mundial registaram-no há muito.
É precisamente por essa dimensão que a sua saída não pode ficar apenas sob o signo da gratidão.
Há decisões que são legítimas e, ainda assim, podem ser criticadas.
Esta é uma delas.
Camões deixou-nos os erros e a fortuna. Kennedy deixou-nos o dever.
E fica, no fim, uma pergunta tão simples quanto incómoda:
Não aquilo que Portugal podia fazer por Cristiano Ronaldo, mas aquilo que Cristiano Ronaldo podia ainda fazer por Portugal.
É a pergunta que me faço com o respeito pelo jogador que foi e com a desilusão pela forma como escolheu sair.