sexta-feira, 6 de março de 2026

Génesis da Bola


No princípio era o verbo…
Mas não era nada…era só para nos distrair, para ver se estávamos atentos!

No princípio era o futebol.

Ainda não havia linhas nem redes,
e já a bola flutuava sobre o nada.
E o primeiro som não foi palavra nenhuma!
O que se ouviu, foi algo mais simples e puro.
O couro a ceder sob o pé,
um estalo que acordou o vazio
e pôs o mundo a mexer.

E do espaço profundo, com ar de estrela que nunca cai, o craque decretou:
— Faça-se o jogo!

E o jogo fez-se.

Separou-se a defesa do ataque.
Chamou-se “golo” à luz e às trevas “autocarro estacionado”.
E viu-se que era bom. Era estranho mas bonito.
Embora não faltasse o visionário de sempre:
— Isto assim não vamos lá, pá… Isto vai dar confusão, já vos digo…

No segundo dia criou-se o drible,
Arte fina e traiçoeira, capaz de deixar o adversário a pedir um GPS para recuperar a dignidade.
E com essa proeza divina que até os anjos aplaudiram, o povo rendeu-se
e o primeiro “olé” rebentou nas bancadas como tempestade sideral.

No terceiro dia nasceram as claques,
Multidões de cachecóis erguidos ao céu,
A transformar estádios em catedrais e bandeiras em mantos sagrados.
E no meio do fumo e dos cânticos alguém a berrar:
— Ó árbitro, abre os olhos, pá! Estás a gozar? Isso foi falta, até no Google Maps se viu!

No quarto dia surgiu o número 10,
E nos seus pés habitava a esperança.
Distribuía passes como quem espalha bênçãos.
E consoante o acerto ou o desacerto, ouvia-se:
- Isto é que é futebol champanhe!
- Ó artista, isto não é PlayStation!

Mas também se criou o VAR.
E fez-se silêncio. Olhos postos no ecrã. Mãos na cabeça.
Frames intermináveis, linhas traçadas como gráficos de laboratório
Ombro ou sovaco? Unha ou chuteira?
E o povo, dividido entre a fé e a impaciência, dizia:
- Mas isto agora é engenharia aeroespacial? Porra, decide lá isso!
E viu-se que era fora de jogo por um átomo de ambição esquiva.
E metade assinou de cruz. A outra metade jurou que era conspiração.

No sexto dia, os deuses olharam e disseram, falta-lhe emoção!
E assim se forjaram os dérbis e os clássicos,
E com eles rivalidades eternas, nervos à flor da pele, discussões que duram semanas, redes a arder.
E sobre todos pairou a lei sagrada do futebol:
- Para o ano é que é!

E ao sétimo dia… ninguém descansou.
Porque no futebol não há repouso,
há prolongamentos e penáltis,
e conferências de imprensa analisadas como se fossem cartas do além.

E assim ficou escrito:
Enquanto houver uma bola a rolar,
haverá magia na relva,
e cada remate será um acto de criação.

Porque no princípio era o futebol.
E o no Domingo...bem, no Domingo, logo se vê….

 

2 comentários:

  1. Excelente reflexão, a minha vénia!

    Eduardo Galeano chamava-lhe " Missa Pagã", e toda a sua paixão pela " alegria do povo " resumiu nas suas crónicas imperdíveis reunidas em dois livros " O futebol à sombra e ao sol" e "Fechado por motivos de futebol" cuja leitura recomendo vivamente.

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  2. Uau. É disto que o meu povo gosta, como dizia Jorge Perestrelo.. Não é bajular è dar valor. Futebol nasceu evluiu. Mas o que há à sua volta destruiu tudo. Portanto acrescentava mais um parágrafo. A (Des)comunicaçao social destruiu tudo! Só mais uma nota. A emoção durante o jogo é inevitável. Depois de várias horas e dias , já não há emoçao, mas sim ponderação, seriedade ou falta dela. Me desculpe mas associar FCP ou seu representante a certas famílias não é justo. Mas como chamar bandido ...até no tal Tribunal é liberdade de expressão, já nem sei que dizer Elsa. Mas digo...esse Juiz(a)...cala-te boca kkk

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