quinta-feira, 26 de março de 2026

A Rábula do Critério: Um Desastre Anunciado

 

A arbitragem no futebol actual é, talvez, a mais rocambolesca experiência sociológica já testada em espaço aberto.

Antigamente, o conceito era simples: um árbitro, dois assistentes, vinte e dois jogadores e uma multidão de adeptos firmemente convencidos de que o árbitro estava sempre errado. Era um sistema imperfeito, claro. As decisões eram tomadas em instantes, guiadas por dois olhos humanos, um apito e uma convicção que muitas vezes era mais fé do que certeza. Erros? Muitos. Mas era um processo quase artesanal e que, pelo menos, tinha a decência de acontecer depressa.

Felizmente, tudo isso ficou no passado.
Ou assim nos disseram.

Agora temos a tecnologia. E com ela um sistema altamente sofisticado composto por árbitros em campo, árbitros assistentes, quarto árbitro, operadores de vídeo, técnicos, monitores, software, linhas digitais, câmaras de alta definição, ultra slow motion. Tudo alinhado para garantir que nada escape: se um árbitro não viu, há câmaras. Se as câmaras não bastarem, haverá repetições. Se as repetições não forem suficientes, haverá ângulos. Se os ângulos falharem, haverá zoom. E, de facto, nada escapa, excepto, com uma frequência quase comovente, o essencial.

A grande estrela desta revolução chama-se VAR - Video Assistant Referee - embora por vezes pareça mais um acrónimo de “Vagamente Aparenta Rever”.

E é fascinante. Porque o VAR vê. Claramente vê. Revê. Amplia. Roda a imagem. Congela o frame. Talvez até faça zoom na alma da jogada. Mas depois acontece algo de extraordinário no processo: ver não implica necessariamente ter visto.

É uma espécie de Teoria das Cordas aplicada ao futebol. Uma verdadeira Twilight Zone onde tudo e nada acontece ao mesmo tempo: falta e não falta, toque e não toque, penálti e não penálti, vermelho e “siga o jogo”. Um ecossistema perigosamente pendurado na interpretação. E o VAR, como um cientista prudente, prefere não colapsar a realidade.

A promessa era simples: ver melhor para decidir melhor. O resultado foi outro: ver mais para duvidar melhor. O futebol, que vivia de impulsos, passou a viver de pausas. E nessas pausas nasceu uma nova linguagem, uma espécie de novilíngua arbitral feita de expressões como “erro claro e óbvio”, “intensidade do contacto”, “posição natural do corpo”. Termos que soam científicos, mas funcionam mais como arte abstrata: cada um vê o que quer. 

É o início da rábula, com o futebol moderno a presentear-nos com a sua criação mais inspirada: o critério. 

O critério é uma coisa extraordinária. Todos o invocam: analistas, comentadores, árbitros, dirigentes. Dizem que é a bússola moral do jogo, a lei invisível que garante coerência. Na prática, o critério comporta-se mais como o clima.

Muda de estádio para estádio.
De jogo para jogo.
Às vezes até de minuto para minuto.
E, em dias particularmente inspirados, de lance para lance. 

Num sábado à tarde, num determinado estádio, um defesa encosta ligeiramente no avançado dentro da área. Um toque leve, quase educado. O avançado cai. O árbitro aponta imediatamente para a marca dos onze metros com a segurança de quem acaba de confirmar uma lei da física.

Contacto evidente.
Penálti claríssimo.
- Segundo o critério.

No dia seguinte, noutro estádio, ocorre uma jogada em tudo semelhante. Talvez até mais evidente. O defesa toca ligeiramente a camisola. O avançado cai. O estádio levanta-se. Os jogadores protestam. O árbitro faz o gesto solene da mão no ouvido.

E então começa o ritual.

A jogada passa no ecrã.
Uma vez.
Depois outra.
Depois em câmara lenta.
Depois em ultra slow motion.
Depois com zoom.
Depois de outro ângulo.
Talvez mais uma repetição, só para garantir.

Trinta segundos.
Um minuto.

Dois.
Três minutos.
And counting…

Finalmente chega a decisão: “Não há intensidade suficiente"


E é aqui que entra em cena a figura mais consistente do futebol moderno.

O erro.

Não corre. Não protesta. Limita-se a atravessar o relvado com a tranquilidade de quem já fez carreira na área. Ninguém o vê, o que, de certa forma, é coerente. Pára ao lado do árbitro e apresenta-se: “Olá, eu sou um erro”.  Fica ali um instante, à espera de ser expulso, corrigido ou pelo menos reconhecido. Nada. O árbitro mantém-se imóvel, dedo no ouvido, concentrado em tudo menos naquilo que acabou de ouvir. O erro suspira. Não de frustração, mas de rotina. Já percebeu que neste sistema não é uma falha, é parte do processo.

E assim, no futebol português já não basta perguntar “houve falta?”. Seria demasiado simples. Agora o que importa é gerir o erro, acomodá-lo, rodeá-lo de subtilezas:

Foi contacto suficiente?
Foi contacto relevante?
Foi contacto negligente?
Foi contacto imprudente?
Foi emocionalmente adequado ao contexto da jogada?

Nasce então um outro conceito espantoso da arbitragem contemporânea: o erro claro e óbvio.

Um erro claro e óbvio não é simplesmente um erro que todos vêem. Não. Isso seria demasiado fácil. Um erro claro e óbvio é um erro que, depois de visto, revisto, ampliado e discutido… continua misteriosamente a não ser claro o suficiente para ser considerado óbvio. 

Não sabemos qual era exactamente o critério vigente naquele jogo específico daquele fim de semana particular, mas, calma, não é incoerência. É o tal critério interpretativo contextual, uma expressão chique que basicamente significa que tudo depende… de muita coisa. Não sabemos objectivamente de quê, mas sabemos que foi analisado com uma profundidade que surpreendeu até o próprio lance.

Mas o VAR mantém a serenidade zen de um monge budista.
Ele viu.
Talvez tenha visto.
Ou pode ter visto algo diferente do que vimos.
Ou então viu exactamente o que vimos…e decidiu que ver aquilo não conta como ver aquilo.

No fim, tudo permanece estranhamente familiar:
os adeptos continuam furiosos,
os treinadores continuam indignados,
os comentadores continuam a fazer o que os comentadores fazem.

Porque o VAR português é essa entidade extraordinária, simultaneamente omnipresente e míope, cirúrgica e contemplativa, tecnológica e profundamente espiritual. E é na pedagogia que se revela em todo o seu esplendor. Sempre que decide, explica-se que o protocolo foi cumprido. Se interveio, é porque tinha de intervir. Se não interveio, é porque não podia intervir. Logo o VAR nunca erra, limita-se a aplicar uma filosofia operacional...

…mas onde, de vez em quando, que é como quem diz, todas as semanas, acontece uma anomalia quântica: ninguém viu. 

E assim seguimos, felizes e tecnologicamente avançados, num desporto onde há 40 câmaras, três árbitros, um VAR, um AVAR, linhas digitais e inteligência artificial…

…até que, num jogo qualquer, um lance decide um campeonato. 

Não pelo que aconteceu, mas pelo que foi convenientemente ignorado. 

E se há imagem mais fiel do nosso campeonato, talvez seja essa: o detalhe que decide, a falta que não chega a ser, o critério que oscila como uma biruta em dia de vento. 

Prometeram-nos um futebol higienizado, cirúrgico, imune ao erro humano. A tecnologia viria como redenção, como bálsamo para décadas de suspeitas. Mas o que se descobriu é que a câmara não elimina a interpretação, apenas a amplifica. 

Há lances que, revistos dez vezes, continuam a depender do ângulo. Há contactos que, ampliados até à exaustão, parecem ora agressão, ora acidente de percurso. E nesse território pantanoso floresce o eterno calcanhar de Aquiles do futebol português: não a falta, mas o critério; não o erro, mas a desigualdade percebida do erro.

O problema nunca foi apenas a decisão. Foi a sensação. A ideia persistente de que a balança raramente oscila ao acaso. De que o benefício da dúvida tem morada conhecida. E assim, cada vitória arrancada na sombra de um lance duvidoso alimenta não só a tabela classificativa, mas também o arquivo invisível das desconfianças.

No fim, o resultado fica. A polémica também. Porque enquanto houver margem para interpretar, haverá margem para suspeitar. E nenhuma tecnologia, por mais sofisticada, consegue arbitrar a fé. 

E o erro?
O erro está mais confortável do que nunca.

Já não entra de rompante. Não precisa. Agora chega acompanhado, validado, enquadrado por um protocolo que o legitima. Já não é um intruso, foi domesticado, tornou-se parte do sistema. 

 

2 comentários:

  1. Ó Elsa, bela prosa, como habitualmente.
    Mas a coisa é muito mais simples.
    Dominas o Conselho de Arbitragem. Dominas e/ou condicionas os árbitros e 'vares', e eles decidem a favor do(s) dono(s)!
    O erro é deliberado e depois escamoteado pelos prestidigitadores de serviço.
    Voilá!

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  2. Boa Tarde Jota,

    O texto é longo mas pretendia demonstrar duas factos: o absurdo a que chegamos e, na parte final, relevar precisamente o que resume muito bem no seu comentário: o sistema porque eles andam aí como sempre.

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