sábado, 23 de setembro de 2017

Contas e afins...

Quem me conhece sabe que não é normal eu alongar-me muito sobre estes assuntos.

Na minha modesta opinião existem coisas muito mais importantes e transcendentes para a gestão de uma empresa do que apenas a função financeira. Reconheço contudo toda a importância que uma gestão financeira apertada tem para refrear os ânimos de uma gestão mais "voluntarista", obrigando a que não só o investimento seja planeado mas também que o retorno desse investimento seja acautelado não só em volume mas também no espaço temporal em que esse retorno tem de acontecer.

Gerir um negócio com poucos recursos é algo que todos os gestores/directores/engenheiros/empresários Portugueses tiveram de enfrentar em algum momento na sua vida. Está nos nossos genes a cultura de "sucateiro" e a "prestidigitação". Fazemos magia com quase nada e transformamos muitas vezes o que outros desprezam em ideias geniais que resolvem problemas.

Mas até para estes passes de mágica e soluções de recurso é necessário um negócio onde exista liquidez e em que a preocupação financeira principal não seja apenas a gestão do passivo ou da dívida bancária.

Liquidez foi algo que não existia na SAD do Benfica quando esta foi criada e demorámos muitos anos a apresentar resultados consistentes que nos permitissem hoje respirar com algum alívio. Acho que a principal medida foi mesmo ter o poder de mandar os bancos às malvas, usando uma ferramenta financeira cujo sucesso foi baseado em muito na nossa militância e dedicação ao clube. Estou a falar dos empréstimos obrigacionistas.

Outros existem que recorrem a outras ferramentas e que até cedem o controle das suas SAD's a terceiros para poderem usufruir da tão desejada liquidez. Com liquidez qualquer SAD compra melhor aos seus fornecedores, vende melhor aos seus clientes, usufrui de melhores condições contratuais, proporciona melhores plantéis para as suas modalidades, etc, etc, etc...

Mas vamos a factos. E isto é apenas uma opinião pessoal que nada tem a ver com conhecimento académico (é bom esclarecer isto antes que venha para aí alguém de ferramenta afiada a tentar tirar-me a pele por não saber que lado do número por a vírgula)

Positivo:
Aumento dos capitais próprios.
Melhor resultado operacional desde o início da SAD (penso eu).
Aumento dos resultados líquidos.
Redução em mais de 46% do passivo corrente.
Aumento da receita de bilheteira (todos os que contribuíram podem desde já começar a dar palmadinhas nas costas...).
Aumento dos direitos de televisão (num ano em que o clube não foi além dos oitavos de final da LC...)
Aumento do activo consolidado (refiro-me a isto mais abaixo).

Menos Positivo:
Não aumento da receita comercial (talvez por não se ter ainda concretizado o "naming" do estádio e ter havido cessação de contrato com algum patrocinador).
Aumento dos gastos com pessoal (gratificações, prémios de desempenho, prémios de assinatura*, comissões, etc)
Aumento das perdas de imparidade de direitos de atletas (rescisões, transacções abaixo do preço de compra, amortizações).
Redução do resultado operacional sem direitos de atletas.

Negativo:
Não encontro neste resumo incluído no comunicado à CMVM nada de especialmente negativo ou com relevo suficiente para ser censurável.

Preocupações:
  • O resultado operacional sem direitos de atletas preocupa-me da mesma forma como me preocupa o aumento do activo intangível em ano de desinvestimento no plantel e estou mesmo curioso para ler a redacção completa do RC no que toca a esta rubrica.
  • Acho que deveremos reconsiderar os empréstimos obrigacionistas limitando-os na sua simultaneidade, mas isto é tão óbvio que seria ofensivo considerar aqui uma preocupação.
  • Se a opção for mesmo eliminar na totalidade a exposição das SAD às instituições bancárias nacionais e internacionais, baseando-nos apenas nos EO para reclassificar dívida, penso que a breve trecho teremos alguma dificuldade em manter a competitividade de algumas modalidades, sendo que a preocupação maior estará com certeza na equipa de futebol profissional.
  • A dispersão do investimento planeado para o próximo biénio/triénio. Este é o ponto onde estou em total desacordo com a linha que está a ser seguida. Acho que o investimento disperso e a criação de vários pólos Benfica pela região de Lisboa fora, nos vai guiar a uma inevitável perda de identidade. Não concordo com a construção do colégio/universidade no Seixal. Eu conheço o jogador de futebol, conheço o futebol, parece-me utópico pensar em substituir o estado na questão educacional e retirar a qualquer jovem a possibilidade de se integrar num ambiente livre de "linhas ideológicas" ou de pensamentos unânimes. É a minha opinião. Invistam em melhores condições para os sócios do Benfica clube. Melhores horários, melhores preços, melhores condições de acesso a tudo o que é Benfica. Invistam na BTV. Na rádio Benfica se tiver retorno assegurado. Concentrem os pólos desportivos. Não se dispersem. O nosso foco é a actividade desportiva. Os sócios querem, golos, cestos, ensaios, vitórias na pista e fora dela. Pouco me interessa se o conseguimos de canudo na mão ou não.
  • Desinvestimento no plantel sénior. O futebol sénior é a nossa actividade principal. A nossa principal fonte de rendimento. Desinvestir em ano de possibilidade de P3N7A é uma anormalidade. Em ano de mudança no acesso à LC. Sacrifiquem tudo o que pensem ser supérfluo mas não subestimem a nossa inteligência. Tudo está alinhado contra nós. Todos nos tentam achincalhar e os outros tentam esconder com mentiras sobre nós a verdade da sua própria condição. Mas soberba não obrigado. Reconheçam o quanto antes que erraram e resolvam as lacunas de qualidade que o nosso plantel tem. Vender Mitroglou foi um erro colossal. Reconheçam que Luisão está um ano mais velho. Não está "roto" como outros mas trata-se de um jogador que ocupa uma posição e um lugar fulcral dentro do plantel. A sua substituição tem e deve ser equacionada e acautelada. É necessário planear desportivamente para não reduzir as nossas possibilidades de êxito. Digo eu hoje: "Há mais vida para além do passivo, há mais futebol para além do Seixal".

Finalmente e voltando ao RC, vamos aguardar pelo documento completo mas penso que vamos estar perante um RC que vai ser histórico e que vai marcar a diferença entre nós e todos os outros.

VIVA O BENFICA PORRA!!! (Este grito pode ter sido meu mas é de todos, por isso hoje à noite é para ganhar ouviram????)


NOTA: Quanto ao resultado básico/diluído por acção confesso que fiquei com dúvidas na leitura do que está no comunicado mas penso que não se trate de um rácio entre entre os dois resultados em anos diferentes mas sim o resultado de 2016 e o de 2017. Só que não sei qual deles. Sei que o resultado básico é normalmente diferente do resultado líquido por acção. Como não sou jogador da bolsa nunca me preocupei muito com esta questão dos resultados por acção até porque é complicado perceber como se chega lá sem conhecer o historial das acções da nossa SAD (não me recordo por exemplo se já houve desdobramentos), por isso deixo isto para os profissionais.

Nuno Miguel Aleixo Fernandes
Sócio 42424

7 comentários:

  1. Bom post Nuno. Gostei das tuas explicações. Estou ansioso que o Benfica Eagle do NGB nos esmiúce os nossos "númaros" o que deve acontecer quando vierem à luz do dia os númaros dos corruptos.
    ------------
    Dizes que; «Aumento dos gastos com pessoal (gratificações, prémios de desempenho, prémios de assinatura*, comissões, etc)»

    Vieira achou por bem aumentar, antes das eleições, os ordenados do pessoal trabalhador entre 30/40%...não estou contra...mais aumentos, vêm a dar mais descontos para a S.Social que é quem me paga a reforma...

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    1. Apesar de eu achar que o dinheiro per si não significa aumento de produtividade, é bom quando a entidade patronal reconhece o bom desempenho de todos.

      Mas não sabia dessa decisão. Julguei que poderia ser um aumento derivado das questões dos custos zero (Carrillo por exemplo).

      Abraço Viriato.

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  2. Nuno, partilho da análise e sobretudo das preocupações...

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  3. concordo que criar a universidade não faz sentido, não tem utilidade e é entrar num negocio que não dominamos, fazia muito mais sentido fazer uma parceria com uma universidade já existente.

    a dispersão de vários pólos por lisboa não só não faz perder a identidade pelo contrario aumenta a área de influencia e recrutamento do clube, alias foi um dos motivos de maior crescimento em relação aos restantes clubes de lisboa.

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    Respostas
    1. Olá João
      Obrigado pelo comentário.
      Quando escrevi pensei que alguem poderia argumentar exatamente isso.
      Eu considero o Benfica de forma aglutinada. A minha ideia seria ter um Benfica junto no mesmo local.
      Se existe espaço ou não no Seixal? Depende. Com este projeto da Uni acho que desperxiçamos sinergias e área que poderia ser aplicada em manter os sócios juntos de tudo o que se passa no Benfica.
      Se o futebol feminino é aposta porquê ostracizá-lo de nascença?
      Eu sou adepto de râguebi por exemplo. Porquê não colocar esta modalidade no centro da nossa formação?
      Se eu quero ver os nossos juniores ou a nossa equipa B porque tenho depois de fazer 30km para ver o raguebi?

      Foi esta ideia que quis passar.

      Mas se quiserem ainda digo mais. A escolha do Seixal foi feita sem ter uma noção real da nossa dimensão. Sem menosprezo nenhum para quem nos apoiou no início do projeto. Mas isso são contas e conteúdo para um outro post completamente diferente deste.

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    2. eu percebo a ideia tudo junto.

      só que o seixal não é central para a área metropolitana de lisboa, num raio de 20KM talvez estejam 1M dos 3M totais dessa área.
      por exemplos os jogos da equipa b no estádio da luz tinham em media mais do dobro que tem no seixal.

      o que é também um problema para o recrutamento das camadas jovens das modalidades.

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  4. TUDO o que diz respeito ao Benfica me preocupa. No entanto, não me sinto com bagagem ao nível de conhecimento para comentar este - que mesmo assim considero excelente - texto do amigo Nunomaf

    Claro que o Estádio da Luz na vai sair de Lisboa. Mas é uma pena, na minha opinião, que Estádio e Academia do Seixal não estejam junto. Seria uma cidade do Benfica para os Benfiquistas. Impossível? Talvez não, o futuro o dirá.
    Ontem fizemos um grande jogo.

    Grande abraço nunomaf

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