Ser adepto de futebol em Portugal é assistir, impotente, à morte do que faz o futebol mágico: o jogo em si. O que devia ser paixão e emoção no relvado foi sendo sequestrado por um espectáculo degradante fora dele. De entre todos os prismas que se podem examinar, e são muitos, o comentário televisivo, é apenas mais um insulto escancarado ao futebol, uma prova do ridículo a que chegámos. Já não é só cansativo, é frustrante, rouba-me a alegria que antes sentia.
Faminto por soundbytes, infiltra-se por cada frincha, agride-nos diariamente, condensado em estúdios onde supostos especialistas analisam cada detalhe como se fossem previsões retroactivas. Como consequência, antes ou depois do jogo, entre jogos, a todas as horas, assistimos a uma ópera bufa representada em salas forradas a leds e indignação reciclada encenada por antigos protagonistas ou estudiosos da bola, com gravatas mais tácticas do que qualquer 4-3-3, prontos a dissecar o que nunca existiu e a provar o que ninguém viu.Neste histriónico conclave, ficamos a saber que o médio-centro foi na verdade um avançado interior disfarçado de lateral emocional, o extremo era afinal um falso ala existencialista, o trinco tinha vocação para poeta maldito incompreendido e o treinador ousou reinventar a roda quadrada com um losango trapezoidal de inspiração vagamente nórdica. Fala-se de linhas subidas e blocos baixos como se fossem signos cósmicos, tudo muito científico, com gráficos que piscam como constelações nervosas e setas a perseguirem jogadores congelados ou saltitantes numa dimensão onde a física se curva às opiniões. Uns falam em intensidade suficiente. Outros em disputa normal. E há sempre a “dinâmica do lance”, expressão que serve para tudo e para nada, mas dita com a gravidade de quem acredita ter acesso a uma verdade superior do jogo.
E pelo meio, as beatas do futebol, cada uma com uma obsessão diferente, e todas absolutamente convencidas de que essas obsessões são a chave última para explicar o jogo.
Um não fala de outra coisa senão de redes sociais: cada tweet do avançado, cada story do médio, cada publicação, é escrutinada como se fosse um relatório táctico confidencial. “Reparem na hashtag que o defesa postou esta manhã, indica claramente que ele vai falhar o próximo passe!” declara com ar de revelação divina.
Outro vive para as entrevistas e declarações públicas: interpreta cada palavra como se fosse um oráculo. “O guarda-redes disse ‘estamos focados’, mas a pausa antes do verbo revela ansiedade… isto vai alterar a eficácia do próximo remate”, garante.
Um terceiro mergulha nos bastidores contratuais: cláusulas, renovações, negociações, cada papel assinado é apresentado como determinante. “Se o defesa-central assinou a cláusula X, inevitavelmente a equipa adversária sofrerá um golo aos 73 minutos”, afirma com convicção inabalável.
E o quarto, porque nestes painéis há sempre mais um, analisa todos os detalhes triviais com solenidade inexorável: a roupa do treinador, o sabor do café, a playlist pré-jogo, a posição das garrafas de água, o ângulo da sombra das bandeiras, o padrão das meias, a temperatura da bola, o número exacto de migalhas na bancada, a marca das chuteiras do jogador que não foi convocado, a intensidade da luz no estádio, a sequência de aplausos do público, o desenho das redes, até a inclinação da relva no centro do campo. ““Se o café estiver demasiado amargo, o avançado vai falhar o penálti! Se a luz mudar de tonalidade em 0,2%, o passe do médio será desviado!” E se a relva estiver ligeiramente inclinada para a esquerda, o guarda-redes vai mergulhar para o lado errado!” sentencia.
E depois há o comentador isento, figura que se apresenta como farol de equilíbrio, mas que tantas vezes apenas disfarça, sob linguagem polida, os mesmos enviesamentos e insinuações que alimentam o ruído. Fala com cautela, invoca a objectividade, mas raramente escapa ao que diz evitar. “Não quero levantar polémicas, mas…”, começa, antes de levantar todas. “É apenas uma leitura técnica…”, acrescenta, enquanto desliza suavemente para o território da opinião mascarada de evidência.
Ainda assim, importa reconhecê-lo, nem todo o comentário é vazio. Existe análise séria, gente que estuda o jogo com rigor e que realmente contribui para o compreendermos melhor. O problema é que essa voz raramente consegue competir, em visibilidade e influência, com o registo circense que domina o espaço mediático.
É um atoleiro, jornada após jornada, entre indignação programada e análise microscópica do irrelevante nesta trágico-comédia em que se transformou o futebol português. Cada passe, cada remate, cada golo soa agora como uma nota desafinada numa partitura que não lhes pertence, orquestrada nos bastidores, arrancando do futebol tudo o que era bonito e simples.
No fim, a sensação é esmagadora e dolorosamente triste, o jogo, a sua espontaneidade, a sua beleza, foi engolido pelos delírios dos que pensam dominar aquilo que, por natureza, só a bola decide.
E eu, que só queria ver noventa minutos de futebol — um remate torto, um drible improvável, um golo que não precisa de tradução — dou por mim a fugir do ruído como quem protege a última centelha de um prazer antigo. Porque, no meio de tanto excesso, resta cada vez menos espaço para o essencial, sentar-me, olhar para o relvado e acreditar que o jogo ainda me pertence.