sábado, 19 de março de 2011

Querido PAI - Benfiquista - Eterna SAUDADE

Hoje é dia do Pai. Estou nesses, incluído.

Mas não é de mim que quero falar. Quero sim, falar do HOMEM que um dia me deu o ser. O meu PAI
Partiu para o descanso eterno, pelas 06H00, de 04FEV2001.,
Encontrando-nos sentados, na sala de espera do Hospital de Santa Maria-Lisboa, a dado momento, olhou para mim, deitou a cabeça sobre os meus joelhos, e acredito que, com saudade mas feliz ...partiu.
Não se passa um segundo, minuto, hora, dia, que não esteja no meu pensamento. Ao recordar-me, não raras vezes me cai uma lágrima de saudade.
Homem que nunca frequentou uma escola, sabia ler e escrever corretamente e sem erros. Incrível não é? Aprendeu a ver estudar um filho (hoje médico...) de um patrão que teve, quando era jovem. Inteligente o meu querido Pai.
Era benfiquista. Trabalhador do campo, onde labutava de sol a sol, a fim de conseguir sustentar e criar cinco(5) filhos, "queimado" pelas agruras e sacrifícios da vida, vivendo numa casinha muito pobre, onde não havia água nem Luz sendo a casa de banho o campo - atrás da árvore - , apenas pilhas num pequeno rádio, onde se ouvia os relatos do ... Benfica.
Eram tempos daquela equipa fantástica formada por: Eusébio, José Torres, Simões, José Augusto, Coluna, Costa Pereira, Cavem, e ... tantos e tantos outros, “monstros” do futebol.
Homem duro como era, e por educação dos tempos, não era homem de chorar. Daquela cara de pai educador, super protector dos seus filhos, “rude” e curtido pelos dias de trabalho, cujo cansaço, não deixava transparecer o quanto sensível era.
Vi o meu Pai chorar quando (ele) já tinha perto de 50 anos. Chorou com a neta, minha filha. Nessas altura vi sair dos seus olhos muitas lágrimas, sendo a maioria de felicidade.
Antes dessa altura vi o meu PAI CHORAR apenas UMA VEZ.
Tinha eu entre 10/11 anos e um dia parti do Campo de Tiro de Alcochete, onde nasci e vivi até perto dos 12 anos, rumo à descoberta do meu sonho: Ver o Estádio da Luz, em Lisboa. Vim à sorte, em pura aventura, pois não conhecia nada de nada da nossa Capital.
Sai de casa de manhã, deixando os meus quatro (4) irmãos sozinhos no casebre. Todos mais novos que eu, sendo que uma era bebé.
A minha idade era uma idade irresponsável. Vim a Lisboa, chegando ao Estádio da Luz, pelas 14:00, partindo desse pelas 16:00. Cheguei a casa perto das 21:00.
Tinha o meu PAI à minha espera
Não me perguntou nada. O cinturão de cabedal que tinha na mão direita foi a “voz” que se fez ouvir.
Nas minhas costas ficaram as marcas, muitas marcas, que nem a minha querida mãe (felizmente ainda hoje a meu lado fisicamente) me pôde tratar.
Nem pensar em socorrer um filho, quando o meu pai algo lhe dizia, ou por esta ou aquela razão, lhe batia.
Eram outros tempos. Tempos “rudes”, em que o campo, as terras de cultivo, as enxadas, eram o “divertimento” diário.
Foi a última tareia ou algo análogo que o meu PAI me inflingiu.
Perguntar-me-ão: Mas o que é que isto quer dizer ou tem a ver com o chorar?
Fiquei muito ferido, na alma, no coração, e no corpo de criança, feito homem, responsável diariamente – isto nas férias grandes-sem escola – pelos meus irmãos mais novos.
Não havia respeitado uma ordem do meu pai e parti, abandonando à sua sorte, os meus referidos irmãos.
ESSES, passaram o dia em que não se alimentaram, passando fome, não se lavaram – era eu quem o fazia – em particular à bebé, enfim, fui o que era na verdade: Uma criança.
Passados alguns dias, ainda tremulo e dorido, fiquei arrepiado quando brincava em frente à minha casa, que era campo, que não rua, quando vi aproximar-se de mim, o meu PAI.
Tinha ele 33/34 anos. Ainda não tinha falado comigo depois da tareia que me havia infligido
Daqueles lábios curtidos pelo cansaço, saiu algo como:
"" Filho, olha para o pai. O Pai bateu-te porque deixas-te os teus irmãos sozinhos, e isso não se faz. Já agora diz-me onde foste?""
Levantando os olhos, encolhido pelo medo, e num tom baixinho no timbre, mas ENORME no orgulho, feito dignidade e coragem, num corpo de criança, respondi:
""Pai, pode bater-me, matar-me, fazer-me o que quiser, mas a alegria que eu sinto por ter visitado e conhecido o ESTÁDIO DA LUZ, nenhum cinto de cabedal, a consegue tirar. ""
Ditas estas palavras e conhecendo as reacções do meu PAI, preparei-me para levar uma bofetada. Só que ...
O meu querido, meu amigo progenitor olhou-me fixamente, por alguns segundos e, virando-me as costas, seguiu o seu caminho ... CHORANDO.
Nunca antes o tinha visto chorar. Só muitos anos depois, voltei a ver saltar daqueles bonitos olhos, novamente o elixir da sua sensibilidade: As lágrimas.
Enquanto escrevo estas linhas, caiem-me as lágrimas, por Saudade do melhor pai do MUNDO.
Meu VELHO, meu AMIGO, meu QUERIDO, só DEUS e eu sabemos, a Saudade que sinto dentro do peito da tua presença física. Espiritualmente estás sempre comigo.
Em cada vitória do Benfica, a minha primeira reacção é levantar os olhos ao Céu, onde sei que estás, e permitindo-me o abuso, te a dedicar pois sei o quanto eras benfiquista e os valores que me transmitiste, em que a HONRA e a SERIEDADE, teriam que ser SEMPRE, a nossa imagem.
Obrigado PAI, pelo HOMEM, pelo SER HUMANO, pelo EDUCADOR, pela INTEGRIDADE, pela HONRA, pelo CARÁCTER, pelo teu LABOR.... e pelo BENFIQUISTA que foste.

Um dia irei ter contigo e num ABRAÇO eterno, vou contar-te tantas e tantos coisas que agora não consigo dizer-te.

Um beijo deste teu filho que SEMPRE te AMARÁ e terá no CORAÇÂO

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